sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A tranquilidade das manhãs

A tampa da chaleira trepidava e expelia vapor e gotículas de água.
Marido pedia a loção pós barba, a de embalagem verde que é mais suave, hoje não pode ir trabalhar com cheiro de perfume muito forte.
Despejo a água no coador com pó, corro apanhar a loção e dou beijo de bom dia na menina que já vai pedindo banana amassada com canela.
Arrumo o lanche e vou ouvindo o pedido da menina enquanto bebe aos golinhos seu café: "mãe, faz macarrãozinho com legumes para o almoço, faz, vai, tem tanto tempo que a gente não come."
Pegou o lanche? Não esquece de mostrar o bilhete para a professora.
Que bilhete? - pergunta o marido.
Que ela não vai no passeio.
Outro?
Pois é, acabou de ir em um e já veio bilhete para outro; R$180,00. Num vai não.
É, diz marido, a escola tem que se virar para pagar o décimo terceiro. Vamos que já está em cima da hora.
No portão, um beijo, um afago no cabelo e o carinho de um bom dia. "Vamos sentir falta de tudo isso".

Tomo o meu café já pensando no macarrão com legumes do almoço e decido ir àquela hora mesmo ao mercado. É mais vazio.
Enquanto caminho, vou pensando que as crianças crescem tão rápido e logo estarão voando, ganhando o mundo e a correria cederá lugar para manhãs tranquilas.

Paro em frente às cenouras e enquanto escolho e aguardo desocupar o lugar das abobrinhas, onde duas senhoras conversam, vou me inteirando do assunto alheio.

"Dona Glória, a senhora corta no meio e raspa o miolo e depois põe a carne moída, que tem que fazer sem nenhuma gota de óleo. Ah, e não compra aqui no mercado não, porque precisa ser carne bem magrinha; tem que ser do açougue. Pede para cortar um pedaço que tem que ser começo da peça, porque no meio já tem mais gordura.

A minha Míriam também tá num regime danado. Eu venho cedo no mercado porque ela só come peito de peru fresquinho e tem que tirar aquela casquinha, senão fica tão irritada a coitada. Eu venho cedo e peço pra mocinha, com jeitinho, para ela cortar a casquinha pra mim antes de fatiar. Dona Dirce, quantos anos o Raulzinho ficou casado?

Quase dois, mas a senhora não faz ideia de como aquela maldita, Deus que me perdoe, disse erguendo as pestanas e batendo na boca, me devolveu o Raulzinho. O colesterol lá nas alturas, com depressão e eu tenho que emagrecer ele pelo menos uns vinte quilos.

Minha Míriam também tá numa depressão a coitadinha, só come peito de frango desfiado bem miudinho na mão, mas deixa eu correr que se ela acorda e o café não tá na mesa fica tão irritada a pobre. Quantos anos a senhora tá dona Dirce?

Sessenta e oito.
Eu faço setenta mês que vem."

Um mal estar percorreu meu corpo. Pode tudo isso acontecer? Devolver um raulzinho e uma míriam e minhas manhãs tranquilas virarem naquilo?
Saí tão transtornada após ouvir aquela conversa que bati o carrinho com tudo numa pilha de panetones. Amassei algumas caixas.
Nem me senti culpada.
Panetones, em setembro? Ainda nem começou o horário de verão e querem nos enfiar panetones goela abaixo?
Acho melhor o Raulzinho comer panetone só em novembro, por causa do colesterol lá nas alturas.

18 comentários:

Gracita disse...

Olá Ana Paula
Pelo amor incondicional as mães fazem concessões inconcebíveis. E isto ficou gritante no teu primoroso conto.

A beleza está em toda parte. Ela se faz presente em cada momento de nossas vidas... num carinho, num gesto, num afago, num abraço. Então deixo o meu abraço recheado de ternura e muito carinho para tornar o teu dia ainda mais belo e colorido.
Um final de semana abençoado
Beijokas com ternura
Gracita

✿ chica disse...

Ri muito do teu jeito de contar o dia a dia com as crianças. E passa rápido, demais!!Sentimos falta, mas não podemos ficar escravos com as duas senhhoras. beijos praianos,chica

Cristi@ne disse...

Muitas vezes nossos problemas são tão pequenos em vista de tanta gente que anda por aí.... rs
Um abençoado fim de semana,
Bjs Cris

lis disse...

Oi Ana
Voce é muito boa com as palavras... saio rindo das conversas entreouvidas no mercado_ e os casamentos desfeitos a volta pra casa o colesterol deixa a gente bem estressada hem? mas as mães são uns amores seus filhotes nunca crescem...
Parabéns pelo pedido saudável_ macarrãozinho com legumes! deu vontade! rs
abraços e bom sábado

Das coisas que vejo e gosto. disse...

Oi Ana!

Amo de paixão o jeito simples e ao mesmo tempo terno que você nos conta seus pensamentos e situações vividas.
O tempo passa rápido mesmo. Lembro ainda da minha solteirice morando com meus pais e irmão. As conversas na mesa após o jantar, o cheiro da comida e o "boa noite " antes de dormir faz falta até hoje. Não esqueço.

Agora, o Raulzinho e a Mírian hein? Pense em duas malinhas!

Beijos!

Selma

Dama de Cinzas disse...

Muito bom o texto, tem a sua leveza ao escrever que a gente nem sente e quando vê o texto acabou. Assim que são os bons textos.

Beijocas

Tina Bau Couto disse...

Para começo de conversa por mim vc saia atropelando todos os panetones que visse pela frente, eles não estando nas prateleiras nem em dezembro não iam me fazer falta, mas vamos ao senso de coletividade, tem muita gente que gosta, daí a já ter nas prateleiras em setembro é o capitalismo atropelando a tradição.
Além do comércio em primeiro lugar tem tb o viver a frente dos muitos que já tem programado o carnaval de 2015, já compraram a roupa que vão vestir no próximo São João e por ai lá. Deus me livre dessa ansiedade e desespero!

Quanto as mães que dão pizza aos filhos que só gostam disso, passam manteiga do lado certo da bolacha se não a cria cria confusão (alguém a propósito por favor me explica isso de lado certo do biscoito para a manteiga, vem em algum manual que amanteiga deve ser passada no fundo ou na frente do biscoito?), as que rodam o mundo atrás daquela marca, que dizem orgulhosas que o filho ou filha só comem tal coisa de tal jeito, meus sentimentos, lamentos e se eu não estiver num dia bom, inúmeras broncas. Coitadas das esposas, coitado do mundo com esse monstrinhos em potencial. Coitadas das pessoas que vivem assim achando-se reizinhos mandões e rainhas mimadas, sendo de fato escravos de tantas frescuras.

Creio que vc não terá filhos devolvidos, mais fácil ter que ajudar eles a reeducar seus parceiros, espero que não e os filhos dos seus filhos serão presença certa em sua casa para para serem educados a moda antiga.

Uma perguntinha: Que tal ficou o macarrão com legumes?

Blog do Óbvio - Manoel disse...

Ana Paula, morri de rir! Adoro ouvir essas conversas do dia a dia. Muitas vezes fico pensando se devemos levar isso ao pé da letra ou se existe algum exagero na descrição.
Será que o Raulzinho estava tão maltratado ou um pouquinho de raiva da "norinha" serviu para temperar a história. Enfim...
O que gostei mais foi do paralelo que você fez da correria de hoje para a "calmaria" dos tempos da devolução do Raulzinho.
(Ana, você precisa escrever outro livro e incluir essas histórias nele. São preciosidades do nosso dia a dia).
Beijo
Manoel

Anne Lieri disse...

Para as mães os filhos são sempre pequenos.Incrivel essa história e se os filhos permitem, por comodismo,as coitadas nem tem sossego na velhice.Teve razão em ficar irritada.bjs e bom domingo,

Bia Hain disse...

Ana, eu adoro postagens que contam passagens do cotidiano. Esses dias me perguntei o mesmo... não estará um pouco cedo ainda para os panetones? temo virar a esquina e ver uma árvore de Natal piscando antes mesmo do Dia das Crianças. hahaha.
E os filhos...crescem, e crescem rápido. É bom fazer o gosto deles de vez em quando.
Um abraço!

Rovênia disse...

XII!! Como diz minha sogra: não aceito devolução!
Boa história e bom domingo família!

Moro em um Kinder Ovo disse...

Seu ouvido é muito bom!!! Também adoro ouvir estas histórias pela metade e às vezes fico inventando um final qualquer. Ri muito e este seu jeito de contar uma história é sempre divertido.

Carolina Lima disse...

Panetones em setembro. Musiquinhas e propagandas natalinas em outubro. Comércio e todo mundo louco. E mais um ano que se foi.

Carol
www.umblogsimples.com

Clara Lúcia disse...

São tudo crias da mamãezinha... e o casamento não deve ter dado certo justamente por isso, por culpa da mamãezinha que criou o filhinho tão bonitinho e saudavelzinho...
Ah, eu não aguentaria ouvir essas coisas não!
Ah se um filho meu me obriga a fazer algo... nem sei minha atitude.
Bem, cada um com seu cada qual.
A vida é magnífica e devolve com papel de presente todas essas atitudes desses pobres coitados.
Ah, coitadinhos!

Menina, fiquei indignada!
Uma ótima semana, beijos

Patricia Galis disse...

kk muito bom o texto e como escreve, eu mesma já comprei panetone esse final de semana amooo chocotone humm
ps: e como as crianças crescem rápido aff...

Vania Lucia disse...

Ana Paula, ótimo! Pior é que tem muitos Raulzinhos e Mirians por aí, pior ainda é que tem muitas Donas Glórias também, kkkk...
Bjs
Vania

Alê Passarim disse...

:oDD
Esse post também foi tragicômico. Muito divertido!
(E preocupante para nós mães de crianças, futuros adultos.)

Suzy Rhoden disse...

Ana, divertidíssimo seu texto!
Eu, que tenho filhos pequenos em casa, e todos saem de manhã para a escola, me identifiquei de imediato com tua descrição - só teria que substituir o café pelo chimarão, o resto tudo igualzinho! rsrsrs

Também fico pensando na futura calmaria de minhas manhãs, quando eles crescerem e partirem para viver suas vidas... partirem? E se acontecer a devolução?! Aff!!! rsrsrs Realmente, um Raulzinho e uma Mírian estragados é tudo que uma mãe não precisa aos 70 anos! Quando a idosa é quem deveria estar recebendo os minuciosos cuidados... Mas mãe sacrifica e, se preciso for, cuida novamente do filho e com muito amor!

Beijo, com saudades!