sábado, 9 de novembro de 2013

Flores da memória

Não eram flores a celebrar alguma felicidade.
Não foram lançadas para embelezar os passos pelos caminhos.
A mulher, não mais jovem, ainda não velha, esqueceu-se por um dia de varrer a escadaria.
Vizinhos notaram a ausência do ruído ritmado da piaçava no concreto.
Teria saído para uma consulta médica? Uma gripe a deixara acamada?
Foi só amanhecer e logo o montículo de flores amarelas já estava, como de costume, dentro da caixa de papelão, trazida do mercado. Ninguém lembrou-se de fazer qualquer pergunta.
Aos poucos, a caixa de papelão não apareceu.
Acúmulo de dois, três dias. Semanas.
Foram as flores na escadaria que trouxeram a resposta.
Queremos apenas adornar a memória, os sonhos, as lembranças da mulher. Eles a aprisionaram dentro da casa. Prisioneira dentro de si, talvez com lembranças esmaecidas, esquecidas feito flores na escadaria da própria casa.



19 comentários:

Bia Hain disse...

Oi, Ana...um conto instigante. É interessante como o quebrar da rotina pode repercutir na rotina dos outros.
Muitos vivem esse cárcere em si mesmo e frágeis, não buscam forças para se libertarem.
Um abraço!

Nyce Pinto. disse...

Olá Ana Paula, muito interessante, texto convite a reflexão! Nossa presença só é notada, muitas vezes, quando ela passa a ser "ausência"... Feliz final de semana... um abraço.

Luma Rosa disse...

Ah, eu já acho que todos nós somos prisioneiros dentro de um corpo, mesmo aqueles que dizem possuir uma alma livre.
Mas fiquei pensando na mulher que fazia todo dia tudo igual. Um robozinho que preferia não pensar nos sonhos que não realizou, na vida que não viveu, nos lugares que não conheceu... pisando em pétalas de flores mortas.

✿ chica disse...

Triste, lindo, reflexivo!!! Mas é bem assim a vida. As pessoas se acostumam com o que tem , com o que veem. De repente só quando falta, percebem o valor daquilo, até da falta do barulho da vassoura na escada... beijos,chica

Ana Bailune disse...

Alguns personagens só são recordados ao deixarem de fazer parte da paisagem. Lino, lindo, lindo poema...

Ana Bailune disse...

Alguns personagens só são recordados ao deixarem de fazer parte da paisagem. Lino, lindo, lindo poema...

VERINHA TIBURSKI disse...

Olá Ana
Tudo muito lindo por aqui, estava a ler seus outros posts que havia perdido. A simplicidade do sabonete de rico, a jabuticabeira que me trouxe lembranças, na minha escola eram as carambolas e com certeza a pessoa que receber seu livro vai amar a leitura.
As pessoas são importantes quando desaparecem já percebeu isso? damos valor pelo que já foi, não aproveitamos o momento e sentimos falta no abandono, nossa que triste não é? Mas infelizmente andamos rápidos demais para enxergar as pessoas.
Um belo domingo. Beijinhos.

SANTA CRUZ disse...

Ana Um lindo texto mais parece um conto lindo gostei.bom domingo
Beijos
Santa Cruz

Alê Lemos disse...

Ela morreu? :/

Blog do Óbvio - Manoel disse...

Ana Paula, bem escrito e meio triste. O que traz uma certa significância é que ela deixou sua marca diária na ausência. Pelo menos foi lembrada e notada. Só poderia ter sido uma boa pessoa. Isso é gratificante.
Um beijo,
Manoel

Moro em um Kinder Ovo disse...

Hoje eu li uma frase que deixou marcas "a ausência é tão importante quanto a presença" pois ela nos dá a real dimensão do que o outro representa em nossa vida. Aproveitei a visita para fazer uma leitura do que perdi durante a semana e, como sempre, saio daqui levando doces palavras para o meu viver. Amei o pé de jabuticaba da escola (minha cunhada vive em uma chácara com 70 pés desta delícia)e quero sugerir que o seu filho crie uma lista de itens que mostram que uma pessoa é rica. E para ser feliz?? Hoje eu sou felicidade pura com o resultado do meu time e estou vendo o mundo azul. E você, comemorou muito?

REINVENTANDO disse...

Ao mesmo tempo lindo e triste esse texto, só sei que amei!!
Abraços.Sandra

eduardo medeiros disse...

Gosto de ler teus textos. o "esquecimento" e o "prisioneira dentro de si" me reportaram à minha mãe, que sofre de Alzaheimer em estágio avançado e hoje é prisioneira de si mesma.

boa semana.

Tina Bau Couto disse...

Talvez alguém tenha notado as flores sem varrer
Vai saber!
A ausência da caixa, da mulher
Como saber?
Tantos que nos observam a distância e tantos não nos notam no limiar da proximidade
Não no todo, mas nos detalhes
No que cada ausência diz

Como numa escada
É o que fazemos com as nossas flores e folhas caídas, fruros, esperanças, compreensões e incompreensões
Subimos ou descemos

Luís Fellipe Alves disse...

A primeira pessoa que me veio a cabeça foi a vó de Minas. A vó de Minas fazia de tudo. E passava batido pra gente. Mimava mais que tudo. Hoje, já não cozinha, não limpa, não varre. Esquece nomes, olha o vazio, diz coisas desconexas. E nós sentimos a falta do que ela foi... Não digo que não tenhamos valorizado a vó de Minas. Valorizamos. Só que sentimos falta porque poderíamos ter feito mais, talvez.

Boa semana, Ana!

Vania Lucia disse...

Muito lindo... Um escada ficou e marcou sua passagem.
Bom deixar rastros...
Bjs
Vania

Rovênia disse...

Que lindo! As flores, a história que nos faz pensar no que aconteceu, nos valores que importam, no nosso tempo. Parabéns! Beijos amarelos e perfumados! :)

Suzy Rhoden disse...

Ana, que conto lindo! Me fez pensar um montão de coisas aqui... A mulher, aprisionada dentro da casa, enquanto as flores se acumulavam do lado de fora... seriam os sonhos ali esquecidos? A temível desistência? O cansaço muito mais da alma do que do corpo? De repente, a presença quase invisível dentro da rotina, faz uma enorme falta do lado de fora! Mas, embora cientes do estranho acúmulo de flores na escadaria, ninguém questiona, ninguém se mete... Um conto da vida real, que pode estar falando da casa ao lado, quem sabe até da minha própria casa! Adorei! Grande beijo.

Amara Mourige disse...


Ela cansou da vida que levava! Mudou sua rotina, agora fica admirando as delicadas pétalas na escada!
Bjs
Amara