sábado, 2 de novembro de 2013

Brisas


Duas meninas. Crianças meninas.
A de cabelo feito rio em placidez, sem qualquer sopro para agitar-lhe as águas, de beleza mansa, era também rica.
A beleza da outra não era feito rio alargado que se mostrava resplandecente no dourado do amanhecer ou no pratear azulado da cheia lua. Seus cabelos carregavam ninhos de passarinhos, enrodilhados, desgrenhados, o vento fazia gosto em lhe soprar até folhas. Olhando apurado, tinha beleza. Feito sol e lua, uma rica outra pobre nos antagonismos da Terra.
Sobre o chão que todos pisam, encontraram-se e brotou amizade.
Menina-cabelos-macios sempre estava a brincar na casa-casebre da amiga.
Difícil entender isso. Não havia nada ali a oferecer-lhe. Não havia o tapete, o televisor em cores, a cozinha com armários até o teto e a longa escadaria que conduzia ao andar de cima com macias camas e travesseiros.
Gostava de ali ficar, ouvir a chuva batendo forte nas telhas de zinco.
Também gostava da comida da dona da casa. Era comida esticada, como dona Jandira dizia.
Numa manhã agitada, quando Jandira fritava suas coxinhas para esticar o dinheiro do mês, menina-cabelos-macios pediu-lhe para ficar para o almoço.
Na correria atrapalhou-se Jandira na ordem do preparo e já tinha botado a fritar as coxinhas da freguesa que logo chegaria.
Não podendo jogar fora o óleo em uso, tirou as coxinhas e botou as batatinhas.
Saíram todas pintadinhas.
Menina-cabelos-macios nunca havia se alimentado de tão deliciosa batatinha. Sua mãe nunca sabia como pintar batatinhas. Jandira guardara segredo.


A brisa que hoje se enroscou no cabelo da menina-ninho soprou-lhe o recordar de sua Jandira que a morte deitou sob a terra.
O sopro trouxe também, no grande leito acastanhado de um plácido rio, os contornos da amiga de cabelos de seda, que a morte também a levou. Passeiam sobre a terra porque há muitos jeitos de morrer.



11 comentários:

✿ chica disse...

Me arrepiei ao te ler... A menina de cabelos de ninho tinha a sorte de ter uma riqueza que a outra não possuía:

A Jandira, que sabia "esticar " comida, pintar batatinhas e lá na sua casinha de zinco, havia amor, que dinheiro algum compra.

Lino, lindo! Bela e doce saudade! beijos,chica

Sonia disse...

É isso, e o interessante é que entre crianças o que importa é a amizade e não o que se tem de riquezas materiais.
Belo texto!
Bom final de semana!
Sonia

Anne Lieri disse...

Ana,vc é demais,menina! Fiquei emocionada com sua história tão lindamente escrita! bjs,

Calu B. disse...

Aqui se pode voar placidamente nas linhas líricas de tua escrita, Ana, donde não se quer chegar ao final, pois levamos conosco os saberes da menina de cabelos de ninho.

\0/Lindeza sem fim!
Bjos,
Calu

Blog do Óbvio - Manoel disse...

Ana Paula, a menina de cabelos de ninho, até hoje é uma pessoa muito especial. Vamos aproveitar esse finados para rezar para a para a pintora de batatinhas, Jandira e para a menina dos cabelos de seda.
Postagem real e de poética lembrança.
Beijo,
Manoel

Bia Hain disse...

Tão sensível, tão encantador... lindo demais, Ana. Sempre lembrarei da história quando pintar minhas batatinhas também! :) Um abraço!

Moro em um Kinder Ovo disse...

Sempre dou gargalhadas quando leio as suas histórias. Hoje sorri e me emocionei com as suas lembranças. O sorriso por ver como as almas se aproximam, sem barreiras. Emoção que traz lágrimas aos meus olhos porque as pessoas que partiram continuam a viver dentro de nós e a saudade dói muito.

Tina Bau Couto disse...

Esvazie-me ao te ler. Tão bom esvaziar-se!

Aguei com a batata pintadinha e sorri com a menina árvore de passarinho no cabelo ninho.

Sobre meninas de cabelos sedosos, não muito ricas, mas que passavam as férias em casebres na favela, com um quarto, um casal e muitos filhos, uns 10 que se acomodavam em um beliche ao lado da cozinha, de onde saiam coxinhas e esfirras e uma quiabada de comer rezando, que a mãe preta que tomava conta da menina, de seus irmãos e da casa de sua mãe, fazia toda orgulhosa da visita lá na casa dela qd a menina ia de férias, saída de seu prédio com play, para tomar banho no tanque que ficava tb ao lado da cozinha, para pisar em terra, ver tv menos moderna que a sua, ouvir mmúsica animada, todo mundo falando ao mesmo tempo, comprar pão descalça na padaria, ter os cabelos escovados como se fosse a boneca da casa. Acho fácil, sensitivo entender. Havia muito ali, muito ali que me foi oferecido que aceite de bom grado na época que amava e hoje amo ainda mais. Sou grata, sou saudosa, sou forte, sou de esvaziar-me e encher-me pelo que vivi, comi, aprendi naquele casebre

E por isso e por tantas outras histórias, por uma ainda intocável e distante menina mulher de cabelos encaracolados que tenho como amiga além de seus dois filhos encantados e tantos outros bem-queres, alguns que já não posso mais tocar, que creio que há muitos jeitos de morrer, como há de viver e de mantermos vivos lugares, sabores, de mantermos vivas sensações, sentimentos e até pessoas.

Ivani disse...

Delicia voltar a ler suas histórias encantadoras e emocionantes.
Está cada vez melhor o seu modo de nos envolver.
Um beijo com muita saudade, amiga.

Luma Rosa disse...

Oi, Ana Paula!
Uma narrativa que nos leva as verdadeiras amizades, aquelas que não sabemos como os laço se estreitaram, qual a afinidade que as uniram. Não temos a compreensão, mas sentimos o conforto que uma boa amizade traz ao nosso coração.
Enquanto estiver recordando, estará dando sopro de vida as lembranças. Podemos tentar matar pessoas em nós, mas as que nos provocaram coisas boas, só morrerão com a nossa morte!
Beijus,

Rovênia disse...

Que linda historinha e que vontade de comer essas batatinhas... Morrer e ser lembrada com alegria é o que quero! Preciso aprender a fazer batatinhas pintadinhas também! Brincadeiras à parte, parabéns pelo texto!