domingo, 7 de junho de 2015

A caneta

Era desnecessário. Absolutamente desnecessário.
Mesmo assim, eu comprei uma caneta.
Havia uma na minha bolsa, duas ou três que ficam na escrivaninha, uma delas próxima ao computador; tem também as crianças, em tempo escolar, sempre com canetas por perto.
Foi afetivo o que me fez comprar.

Na minha infância, mesmo quando comecei a ir para a escola, não havia facilmente uma caneta.
Até os cinco anos, lembro-me da minha mãe advertindo com suavidade na voz: "não vai por na boca, tá?"

Eram essas as canetinhas que eu tinha e era um luxo e uma alegria imensa segurar essa caixinha!
Não me lembro de canetas em casa. Meu pai fazia a féria do dia da barbearia com lápis.
Entrei na escola levando o meu estojo retangular de madeira com tampa vermelha, cheio de lápis, de escrever e de colorir.
Foi na terceira série que aconteceu: acho que por ser de difícil acesso, para mim, uma caneta, era um sonho bom chegar logo à terceira série - soubemos na hora do recreio que era nessa série que se começava a escrever à caneta. Até lá, sempre o lápis preto, que em determinado momento ganharia o adjetivo de enjoativo.
Porém, quando cheguei à terceira séria, fui informada pela própria professora que não era assim tão fácil ganhar a caneta. O candidato à vaga, ou melhor, à caneta deveria ter caligrafia impecável. Eu não me enquadrava nesse quesito. Não era garrancho minha letra, mas estava distante do impecável e isso me angustiou um pouco.
A cada dia que passava, minha mão direita parecia ganhar asas e não podia mais se conter presa a um lápis. Diante da demora em chegar o tal dia da caneta e a instabilidade que pairava sobre o meu mérito, bolei um plano: na lição de casa para o final de semana ( sempre uma cópia de um texto do livro de Língua Portuguesa ) eu diria para a professora que havia tinha ido passear na chácara de minha tia ( o que era verdade ) mas havia esquecido o estojo e lá só havia uma caneta e esse era o motivo de eu ter feito a cópia à caneta.
Feito.
Que emoção foi ignorar o lápis e deslizar pelas linhas acinzelatas do meu caderno de brochura com aquela tinta azul. Como era diferente do lápis! Deslizava, parecia ser mais fácil a cópia. Mais rápido era com certeza. O lápis prendia minhas consoantes, com a caneta tudo deslizava. 

Na segunda-feira eu estava empertigada perante a grande mesa de madeira escura da professora para receber o visto da lição.
Duas pessoas à minha frente na pequena fila perante a mestra.
Meu mundo era azul, um delicioso sonho azul realizado até chegar a minha vez.

Desmoronei junto à chácara de titia e todo meu plano e meu sonho azul tornou-se uma mancha horrenda azul no meio de meu caderno.
Amigas pediam para ver: lá estava de um lado a grafia de grafite, na outra página, a mácula, o desdouro azul.

Acabou o caderno, o semestre e logo nos primeiros dias de um agosto foi anunciado o "dia da caneta". A professora anunciava o nome do eleito e a freira de hábito verde-hospital fazia a entrega de delicado pacote. Fui eleita ainda trazendo no peito aquele agouro.
A caneta era uma bic azul de ponta fina.
A imagem mais próxima que encontrei na web, foi essa:


O dia da caneta foi uma marco em minha vida. A partir dele, a proximidade com esse objeto se deu mais corriqueiramente. Vieram as canetas pretas e vermelhas e a verde de ponta grossa.
Logo percebi meu gosto pelas de ponta fina. Parecia a letra ficar mais bonita.
Um dia, no balcão da papelaria estudantil, a vendedora mostrou-me uma nova marca, um novo modelo que prometia não estourar nas mãos manchando tudo, inclusive a camisa branca do uniforme. Ela me recomendou testar num pequeno bloquinho cheio de riscos ondulados. Fiz a minha ondulação e senti imediata empatia com a tal caneta. Custava um valor bem mais elevado que as demais.
Levei.
E foi no quarto ano que a tia Ruth elogiou minha letra perante toda a sala.
Durante seguidos anos letivos,eu elegi aquela caneta, aquela marca como sendo uma luva perfeita para minha mão.


Décadas se passaram. As canetas espalhadas pela casa estampam marcas de escolas de idiomas, nomes de remédios, serviço de seguro.
Foi então que eu me deparei com aquela caneta da minha infância que tornava a minha mais bonita, o meu caderno o mais caprichado e solicitado para a professora levar para a casa dela.
Da caneta eu não necessitava.
Do sonho azul, sim. Por isso comprei!

Após escrever, fiquei curiosa e quero saber: você tem uma caneta especial, ponta fina, ou grossa, ou tanto faz? Modelo, recordações? Ah, quero saber!



9 comentários:

Dra. Cristiane Marino - Mulheres em Círculo disse...

Nossa Ana Paula, voltei à infância, como me lembro das canetinhas silvapen...eram objeto de desejo e muito caras. Sonhei com elas durante anos...
Na terceira série, passamos a usar caneta de ponta fina, estava na lista de material escolar que as mães compravam no começo do ano. Mas eu odiava aquela caneta, minha caligrafia linda com o lápis virou garranchos com aquela caneta. Mas a professora nos proibia de usar outro tipo!
Só quando entrei no ginásio pude descobrir novos tipos de caneta e amei as de ponta grossa e bem macias, faziam minha letra ficar bonita de novo. Até hoje, gosto da Pentel e Pilot de ponta grossa e com apoio de borracha para dos dedos, uma delícia...também gosto da bic diamante e da cristal, são bem macias.
Adoro escrever, tenho diários de sonhos, de poesias, de frases, anotações de consultório, de tanta coisa...sempre com tinta azul e alguns detalhes em vermelho. Até que descobri as canetinhas de gel, uma maravilha, tenho de todas as cores possíveis e vou variando as cores de acordo com o humor.
Mas minha preferida é a dourada, linda demais, só uso quando vou anotar algo que gosto muito!
A gente cresce, mas as brincadeiras continuam...
Bjs

Poesia do Bem disse...

Também vivi esse dilema e me lembrei bem do estjo de madeira que era raro as crianças possuirem por ser caro. Hoje tem tanta oferta e marcas variadas né? Te confesso ainda continua a mesma coisa , a gente (profesora) pede para usar lápis pelo menos até ao menos o 3º ano , quando as crianças já começam a escrever alfabéticamente. Que saudades. Como é bom te ler!!!

Mi F. Colmán disse...

Oi Ana Paula! Tudo bem? :)))
Não tenho, nem nunca tive apego com canetas, talvez porque sempre me foi acessível, acabei me alfabetizando fazendo uso delas. Lápis usava (e ainda uso) para cálculos matemáticos, porque de tanto errar, mais fácil uma borracha por perto do que ter um caderno todo riscado de erros.
Para ser bem honesta, eu detesto escrever manuscritos. Sou a primeira a correr quando mammys (que também odeia escrever assim) solicita "ajuda" de alguém para a lista de compras do mercado.
Minha letra é horrível quando cursiva, não me adapto e sei que vou passar um perrengue nos vestibulares e na redação do ENEM por conta disso. Minha coordenação motora nunca foi das melhores e após um surto neurológico, aí que a coisa piorou de vez mesmo. rsrsrs.
Meu negócio sempre foi digitar mesmo. Aprendi digitação como autodidata, não passei por nenhum professor para me ensinar e uso as técnicas perfeita e naturalmente. Parece que já nasci digitando. rs.
Mas achei bonita tua história de relacionamento com as canetas e a trajetória árdua para conseguir realizar o teu sonho azul.
Aprecio teus escritos porque tu consegue poetizar tudo, até uma simples caneta Bic. Parabéns!
Beijos e boa semana para ti.

Rivotril com Coca-Cola

✿ chica disse...

Te ler é reviver essas emoções todas. No meu tempo passávamos do lápis para a caneta tinteiro. Tinha que levar o tinteiro pra aula, mata-borrões e imagina a jeitosa aqui quanta porquice aprontou,rs.,.. Ainda bem que a cor era azul royal LAVÁVEL...


Há muitos anos uso somente as BIC,de ponta normal.Não gosto das fininhas... Lembro que quando advogava, os"doutores" queriam se exibir cada um com uma caneta tinteiro, daquelas chiquetosas...Eu seguia com minha boa e velha BIC e fazia tanto quanto eles, apenas escrevia VERDADES e elas falava...Por isso,não aguentei essa profissão!!!

Bom, voltando: adorei iniciar a semana co esse lindo texto, como sabes muiiiiito bem fazer! bjs, chica

Tina Bau Couto disse...

Pra começar, eu gosto de escrever com lápis
Gosto de poder corrigir, apagar
De madeira, ponta bem feita
Um lápis, tipo grafite, que amo, já tive e hj choro para pagar quanto custa, é a lapiseira Pentel 0.9
tem um que de desenhista tenho para mim

Também gosto de canetas, das de diferentes pontas
Sempre tive diversas e diferentes, sempre tenho na bolsa, de gel, 0.5, 0.7, coloridas, azul é a preferida (como não? rsrsrs)

Tinha estojos com muitas que ganhava como presente de aniversário ou Natal

Lembro das Faber Fix, Kilométricas, Papper Matte, das que se apertava no lado e subia coisas em cima (tive um que era um ovo fechado e com um clique aparecia um dino). As com coisas luminosas e espalhafatosas também tive.
Nunca fui de roer fundo ou tampa, nem de perder e qd paravam de rabiscar seguiam no estojo ou nos porta lápis como enfeite

É de marido para mim essa caneta da última foto, azul Pilot, ponta 0.5
Desde os tempos da Escola, ele comprava, cuidava eu comprava para ele
Dia desses vi na livraria, comprei e dei de presente
Uma caneta cheia de memórias e identidade para nós

Bell disse...

Essas canetinhas marcaram né?
Era um luxo ter.

bjokas =)

lis disse...

Como a Tina sou uma apaixonada por lápis _ se antes a caneta era uma peça dificil nas escola ,(tinha que crescer pra usar), hoje os lápis é que sumiram ... já iniciam com canetinhas cada uma mais elaborada que a outra _ usam aquelas que apagam e ponto ... rs
Lindo seu texto e fiquei pensando como as coisinhas simples só nos trás boas lembranças e aí sim percebemos que o tempo dá a dimensão exata do quanto foi bom!
abraços Ana

Calu B. disse...

Voltei no tempo, Ana, com tua poética narrativa.Também tive esse mesmo entusiasmo ao usar uma caneta pela primeira vez, com consentimento da professora, claro.Me senti alçando um patamar de destaque na escala escolar.O estojo de madeira com tampa colorida foi por muitos anos fiel depositário dos lápis pretos e coloridos, mas quando ganhou as duas canetas Bic, uma azul e uma vermelha ficou mais importante.
Com o tempo, os hidrocores apareceram e viraram febre, mas pra escrita, em letra caprichada, só a ponta fina azul que fazia volteios macios.
Gostosas lembranças.Adoro ler-te!
Bjsss,
Calu

Obs: vi a chamada da BC, não firmo palavra, mas prometo tentar participar.Bjkas.

Graziela disse...

Que delicia de texto e de recordações.
Adoro contar histórias da minha infância para meu filho para ele perceber o quanto algumas coisas eram difíceis e como hoje "quase tudo" parece mais fácil.
Valorizar um pouquinho faz bem.
Eu adoro canetas e não tenho nenhuma preferida não.
Parabéns pelo texto, muito bom, como sempre.
Abraços
Grá