sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Cheiros

O prédio no qual moramos passa por pintura desde janeiro. Poucos incômodos desde então, se é que podem ser assim chamados. Ficar com a janela de um dos quartos fechado por um dia, não usar elevador social no outro, coisas que na realidade, não incomodam.
Mas houve sim em incômodo daqueles que eu diria, intenso.
O cheiro da tinta com a qual pintaram os corredores internos. Cheiro nauseante que conseguiu, em mim, trazer irritação.
Questionei o pintor que me deu as especificações químicas da tal tinta e tudo que pude gravar era que havia solvente em sua composição, motivo de olfato mais sensível se exaltar. O dele, plenamente acostumado, nada sentia, mas avisou: vai perdurar por alguns dias, porque depois das paredes, tem corrimão, porta de elevador e para mim já estava o suficiente, porque entendi que demoraria a passar.
Dias melhores, outros nem tanto, mas hoje eu espero ter sido o ápice. Eu sentia a tinta no meu esôfago, literalmente e não podia sair porque a porta de serviço tinha que permanecer aberta.
A irritação só fazia crescer em mim, quando resolvi tentar modificar a situação trazendo à lembrança os cheiros que já vivi.
Troquei a irritação por uma sensação prazeroza, carregada de emoções.
Fui direto para a infância, senti o cheiro do fumo de corda do meu avô, da casa faxinada por minha mãe toda sexta-feira, quando a enceradeira dava o brilho no chão de vermelhão. Havia também o cheiro da caixa que meu pai guardava a sua sanfona e nas poucas vezes que a tirava de lá, a música trazia alegria ao nosso pequeno quintal.
Acho que encontrei uma resposta em meio aos cheiros, do porquê nunca aprendi a matemática dos últimos anos escolares: era a última aula do período, começava às 12h 15. Todo o colégio já havia saído, ficava apenas a nossa sala, o professor de matemática, estômago ávido por comida e a faxineira passando removedor por tudo.
O cheiro do removedor não me deixou entender os números e nunca consegui usá-lo nas limpezas caseiras.
Senti o cheiro do apartamento da minha sempre amiga, um cheirinho oriental, acolhedor.
Teve o cheiros dos bebês, suaves e delicados como eles.
O cheiro de um romance que li: "A senhora das especiarias". Uma mulher indiana num pequeno vilarejo se dividia entre a máquina de costura e o empório de especiarias. Muitas especiarias que ela conhecia através do cheiro de cada uma, sua utilidade, seu sabor.
O cheiro de uma história que ouvi no rádio: briga de condomínio; casal estrangeiro, de terras exóticas que insistia em cozinhar às três da madrugada com ingredientes que meu olfato só ousa imaginar.
Teve também os cheiros da farmácia que minha mãe me levava a cada crise de garganta. Era um cheiro de injeção. Daquelas que no dia seguinte eu levava uma almofada para sentar-me no banco de madeira do colégio.
Ah! As farmácias perderam o cheiro de injeção para os tantos cosméticos que lhe enchem as prateleiras.
Cheiro de chuva, que aqui na cidade poluída, eu acho que é mais cheiro de poeira levantada pelo vento, mas continuo acreditando que é um cheiro bom de chuva que vem refrescar .
E nesses momentos em que diluía a minha irritação, pude sentir o cheiro das roupas de minha mãe no seu guarda-roupa quando seu corpo nunca mais as usaria.
Eu ficava ali com as portas abertas e acho que eu era somente olfato, toda olfato. Sentia o cheiro dela, todo o carinho, cada toque que eu já tinha recebido e como foi difícil deixar aquele cheiro se esvair.
Depois de toda essa invasão de notas olfativas, a irritação se foi. Ficou uma tranquilidade, misturada com alegria, com lembranças que vivi.
Acho que até aprimorei meu sentido do olfato...parece que posso sentir o cheiro da tua energia.

2 comentários:

Ivani disse...

adorei sua postagem, Ana, e concordo com você. O cheiro nos remete a lembranças deliciosas, outras nem tanto, e algumas horriveis.
Sou muito alérgica e os cheiros fortes me irritam profundamente além de me machucarem o nariz e a garganta.
Vou fazer uma postagem falando de cheiros, gostei de sua idéia e ela me trouxe muitas lembranças.
Tenha um bom domingo. beijo

Claudia disse...

Ana querida
Que coisa mais linda este post.
Me emocionei até as lagrimas...
Tbe sinto, ate hoje, o cheiro da minha mae. Nao mais nos armarios, mas no coração.
Muito, muito obrigada por compartilhar este momento e por transformar algo incomodo em lindas e doces lembranças.
Adorei o livro tbe.
Grande beijo

http://blogdaclauo.blogspot.com/