sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Um violão

Será preciso juntar três pecas principais, como num quebra-cabecas para se entender essa história.
As pecas: - assistimos a noticiários juntos;
- Bernardo ama suas aulas de Filosofia e seu professor;
- um violão.
Encaixando uma a uma:

Intencionalmente sempre assistimos a noticiários juntos e isso desde pequenos, porque acho que é uma das maneiras de interagir, de conhecer um mundo real.
Não há uma frequencia, nem tão puco é obrigatório. Diria que há fases que assistimos outras não. E aí nessas fases se inclui desde os sensacionalistas, que eu considero que mostram a realidade que eu quero que vejam, que há atropelamentos, enfim, uma parte feia do mundo e também há os mais leves e mais culturais.
Final do ano passado, naquele período triste de tomada pela polícia em algumas comunidades no Rio de Janeiro, com cenas muito próximas à guerra, meu filho fez uma pergunta que não era fácil de responder com um sim ou um não.
- Todas as pessoas dessas comunidades são más?
Enquanto discorria a minha explicação, fazendo-o ver que não era assim, que a maioria eram trabalhadores, crianças que queriam ir para a escola, criancas que não tinham um quintal par brincar ou lugares para lazer, entrou uma matéria de uma ong que ensinava música clássica às crianças daquela comunidade.
A paisagem unida à música nos sensibilizou. No alto do morro, com uma fotografia bela do Rio ao fundo e o som dos violinos, mostrou quantas pessoas boas estão ali.

Desde o ano passado, quando comecou a ter aulas de Filosofia na escola, se apaixonou pela matéria e pelo professor, chamado carinhosamente de tio de filosofia.
Abriu-se um outro horizonte para ele.

Ainda bem no finalzinho do ano letivo de 2010, ele chega em casa e pede para conversarmos porque queria fazer um pedido:
- Mãe você pode comprar um violão para mim?
Estranhíssimo pedido. Bernardo nunca mostrou qualquer vontade, mínima que fosse de tocar violão.
Tantas coisas passaram rapidamente pela mente de uma mãe pega de surpresa. Da onde esta súbida vontade? Fogo de palha com certeza...
Veio a explicação:
Lembrou da reportagem das crianças da comunidade que através da música tinham uma vida melhor e tinham esperança. Citou um garoto que disse que nunca entraria para o crime porque queria ser um grande concertista.
Explicou que o "tio de filosofia"fazia um trabalho com crianças em recuperação na  Fundacão Casa e ele pediu que quem tivesse um violão para doar... que um menino saiu do crime por causa da música.

-Mãe você pode comprar um violão para mim?
Não foi como pedir uma cartolina para levar no dia seguinte à escola.
Ele queria propiciar um oportunidade de uma vida diferente, melhor, longe daquele lado ruim que ele tanto viu nos noticiários sensacionalistas.

Ele levou o violão no dia da sua aula de Filosofia. Ele não sabe tocar e talvez nunca aprenda, mas sabe que aquele instrumento barato, de iniciante, pode fazer a diferença em uma vida, por uma vida inteira.

Um comentário:

Claudia disse...

Ana querida
Que coisa linda! Fiquei emocionada com o Bernardo e tbe com os poemas da Julia (ja fui la no blog).
Obrigada pelo carinho!
Apesar de nao conseguir comentar todos os posts nestas semanas, li tudo e adorei todos!
Bjks mil e uma super semana

http://blogdaclauo.blogspot.com/