domingo, 20 de fevereiro de 2011

Números e letras

O metrô de  São Paulo é local de números e letras.
São milhões de pessoas transportadas todos os dias, quilômetros de trilhos, bilhões em investimentos, aumento de preco da passagem, intervalo entre trens e gente apressada, gente atrasada, regida pelos números do relógio, números de compromissos.
Também é local de letras: milhões de pessoas com um nome, muitas estações, pessoas que se conhecem, pessoas que lêem livros, letras que formam um bom dia, ou um prazer em conhecê-lo.
Em meio ao bulício da multidão, dia desses, chamou-me a atenção, um homem, não jovem, não velho, que alheio aos números de pessoas, das horas, dos trens que chegavam e partiam; estava com o corpo apoiado num parapeito, cabeça inclinada para cima, uma caneta segura entre seus dedos e ele escrevia em um jornal. Letra cursiva sobrepondo a letra tipográfica.
Eu que estava com os números do relógio me pressionando porque levava o filho a aprender as letras de um outro idioma, fiquei com aquele homem no pensamento.
Por que estava tão absorto? Que letras eram aquelas que o deixou em puro enlevo?
Segui com a multidão, porém determinada a voltar ao mesmo lugar e desvendar o que se passou com aquele anônimo do metrô.




Ele estava bem ali embaixo e copiava um poema




Era Camões.
Camões? Aquele que flertou comigo no segundo grau?
Que vinha insistente tocar meu coração com hora marcada duas ou três vezes na semana, e eu o repudiei todas as vezes?
Aquele Camões que me deu uma última chance no dia do vestibular e veio como o prometido com um ramalhete de lilases e eu novamente o desdenhei?
Sim, era esse mesmo Camões que não conseguiu tocar meu coração, talvez imaturo, talvez inconsequente.
Mas agora estava enamorado daquele homem.
Ele lhe acolheu no seu mais íntimo a ponto de escrever suas estrofes em uma folha de jornal.
Aquele homem acalentou aquelas letras. 
Teria alguém para dividir aquelas estrofes? Teria uma Inês a lhe esperar em alguma estação do metrô?
Nunca saberei. Fiquei um pouco enciumada por saber que o Camões que um dia me cortejou anda por aí na alma de um anônimo.


Um comentário:

Ivani disse...

Veja você Ana Paula como os homens são volúveis. E depois nos acusam de se-lo.
Se bem que você o repudiou, na pressa de viver a vida, da juventude louca.
Agora que você o descobriu, lindo e amante perfeito, já é tarde...ou não?
Procure pelas estantes empoeiradas, tente ouvi-lo com mais carinho, escute seus lamentos cheios de romantismo.
Quem sabe não é tarde para entregar-se a um grande amor que enriquecerá ainda mais sua vida já tão boa.
Adorei o post. Beijo