terça-feira, 17 de abril de 2012

A borracha

Já tinha me habituado a ausência dos imensos painéis publicitários, os "outdoors" depois da lei Cidade Limpa em São Paulo e quando me mudei, chamou-me a atenção logo na entrada da cidade, um destes gigantes que anunciava uma escola, com os seguintes dizeres: "Aqui se usa pouco a borracha".
Era ilustrado com a imagem de umas três borrachas, novinhas, aparentemente sem uso.


O carro levou apenas alguns segundos para deixar aquela imagem para trás.
Eu a carreguei comigo, sem mesmo saber o por quê. Aquela borracha macia me cutucou, arranhou, incomodou.
Era algo muito além dos métodos pedagógicos adotados por aquela escola.


E foi durante as férias escolares de verão que meu filho me pediu para apagar toda a lição que ele havia escolhido fazer neste período, porque fizera de modo desatento e provavelmente haveria mais erros do que acertos. Preferiu recomeçar.
Usei uma borracha inteira. O braço doeu. Apesar de dizerem que coração não dói, o coração também doeu.


Cada restrição que é necessária colocar na vida de uma criança, é uma borracha que se usa. Cada arrumação em uma gaveta, em um guarda-roupa, outra borracha.
Talvez a infância e a juventude sejam períodos que mais borrachas usamos, para depois seguirem, pela escola da vida e lá, usar cada vez menos a borracha.
E que na escola de vida, a borracha tenha outro nome: sabedoria.
Apagar, aprender, refazer...
Sem tantos farelos, mas com o sol que raia a cada manhã e nos acaricia, com a maciez que convida a recomeçar.


10 comentários:

Tina disse...

Tirei meu filho quando bem pequeno de uma certa escola infantil por uma frase que fechou com clareza tudo que vinha me incomodando nela.
Ao ver uma borracha no estojo dele a coordenação me chamou para avisar que não mandasse mais aquele material, pois eles não usavam mais o "advento da borracha".
Sem comentários pedagógicos nem filosóficos, seu post fala por mim.

✿ chica disse...

Falaste muito bem e as borrachas usadas servem pra deixar restinhos que sinalizam, devemos recomeçar diferente. Lindo!beijos,chica

Li disse...

Pois é! Temos mesmo que usar borrachas... Acertamos e erramos e que lindo sabermos reconhecer os nossos erros, aprender com eles e nos tornarmos cada vez melhores e mais maduros... apesar que nunca saberemos TUDO!

Beijos!

Lívia.

Ivani disse...

Voce colocou muito bem o assunto Ana, parabéns.
Realmente a vida nos faz usar a borracha com muito mais intensidade na infância e na juventude.
É sempre um recomeço, uma nova fase.
Mas nem sempre a borracha é macia, nem sempre faz apenas cócegas.
Não raro ela é cruel, machuca, rasga.
Mas o resultado é sempre recomeço, sabedoria, maturidade.
Um ótimo assunto que daria outra postagem para quem gosta de falar (como eu!).
Paro por aqui, beijos enormes, tenha um lindo dia.

Blog do Óbvio - Manoel disse...

Ana Paula, genial essa postagem.
Quando crianças a fase é mais focada para a aprendizagem. Por isso aceitamos mais a "borracha" no nosso dia a dia. Conforme vamos amadurecendo (ou apodrecendo,rs) ficamos mais resistentes ao uso da mesma. As vezes precisamos de uma renovação que só apagando traumas anteriores é que ela vai fazer efeito. Então será necessário apelar para a "borracha" da sabedoria.
Beijo
Manoel.

disse...

Oi Ana Paula, acabei de descobrir seu blog e logo de cara li este post tão incrível! Quem dera todas as minhas "borrachas" tivessem chegado ao fim. Muitas vezes temos preguiça ou pouco estímulo para começar do zero, refazer, e isso sim é um grande problema porque no futuro resulta em frustração e arrependimento. É muito triste que uma escola escolha esse caminho como ideal, e mais triste ainda que existam pais coniventes. Reparar, começar de novo, mudar de idéia, tudo isso é crescimento e pra isso precisamos de muitas "borrachas". Adorei o blog.
Beijo.

mfc disse...

Ao vivermos é que não podemos usar borracha... não nos é permitido corrigir nada!!

Compartilhando Sentidos disse...

Oi Ana, não paro de elogiar teus textos.

Acho que a borracha deve acompanhar os estojos dos que se permitem recomeçar, tarefa nada fácil na vida!

Bjo no teu coração!

José Sousa disse...

Oi amiga Ana Paula!
Faz tempo que não te vesitava mas, isso aconteceu para muitos, pois a doensa se apoderou de mim, mas já me encontro bem melhor.
Tenho tanto para postar. Agora vou digitalizar fotos para que possa em breve postar.
Entrei aqui e encontrei este belo texto, parabéns!

Um beijo e muita saúde.

Angi disse...

Ana,
olha tenho que concordar que adorei o teu post e me fez refletir e ficar atenta a esse pequeno detalhe, a borracha. Faz parte sim, faz parte da vida!
Ótimo post, vou divulgar para as amiga,tá?
Beijos