sexta-feira, 20 de abril de 2012

O carro do papai

Os domingos da minha infância foram marcados por uma cena, que se repetiu exaustivamente: meu pai, seu carro e os cuidados a ele dispensado.
Cuidados este de fazer inveja. E motivos de muitas desavenças entre papai e mamãe - "Você parece gostar mais do carro do que da própria família..."
Algumas vezes eu chegava perto, mas não podia encostar em nada e logo percebia que eu atrapalhava aquele momento íntimo entre o papai e seu carro.
E que momento longo! Cedo, lá estava ele com o possante estacionado em frente de casa. Parava para almoçar, porém não elogiava a sobremesa, e voltava apressado para perto daquele objeto que nos "roubava"o papai.
Terminava no final da tarde, a tempo de assistir ao futebol no televisor preto e branco.
Lembro-me do pó de grafite que ele colocava nas manivelas do vidro para ficarem macias e fácil de subir e descer sem ter que fazer muito esforço com o braço. Sempre algum reparo no quebra-vento, os pneus mais escuros que noite sem lua. E o teto? Ele sempre inventava de pintar e depois passava a semana clamando de dor no pescoço.
Ficava visivelmente triste a cada venda e quando chegava em casa mostrando a nova aquisição, já não se lembrava mais da dor antiga. A voz orgulhosa: "este é um 68, direção original"e já discorria sobre a lista de cuidados que dispensaria ao novo carro, não tão novo assim, porque o dono anterior não lhe dispensava os devidos cuidados como papai.
Claro que tinha um pedido de passeio, uma volta pelo bairro apenas.
Claro que não. E se chove? e se algum pombo castiga o polimento feito com cera especial?
Depois de todo este cuidado, ia para a garagem embalado numa capa, esperando o próximo domingo, porque papai trabalhava de segunda a sábado de ônibus.
Expor aquela belezura às garras da cidade grande, lotada de barbeiros que poderiam danificar seu quase filho?
Não, o seu José Augusto, barbeiro, ia de ônibus e abria pontualmente a sua barbearia às 7 da manhã!

4 comentários:

Tina disse...

Um comentário sem comentários :)

✿ chica disse...

Incrível,né?

Lembranças e mais lembranças...
E esse apego ao carro em detrimento da família e diversão, pra que, não?

beijos,chica e lindo fds!

Blog do Óbvio - Manoel disse...

Ana Paula, que legal! A coisa não mudou muito, pelo menos aqui no interior. Temos até alguns colecionadores de carros. Se você parar para pensar, o que melhora ou acrescenta na vida de alguém, essa "mania" de ficar lustrando aquelas "coisas inúteis". Inúteis porque não são usadas como meio de transporte e sim para espelhar, com muito orgulho, o ego do "feliz" proprietário.
Bacana a postagem e também o seu ponto de vista.
Beijo
Manoel.

mfc disse...

Para mim... carro é mesmo para usar!!
Só lhe meto carburante e o levo ao médico(mecânico) quando é preciso!