domingo, 26 de abril de 2015

Na banca de jornal

Aos sábados me apraz ler jornal.
Jornal de domingo, não gosto. Traduziu bem uma personagem num livro: jornal de domingo não tem nada de útil, ao que o marido retrucou, mas essa é a intenção mesmo, não ter nada de útil.
Muita publicidade de lançamentos de apartamentos para o meu desgosto.
Prefiro sábado.
Costumo ir cedo à banca. Ontem, porém, estava um pouco indisposta, na verdade acho que nem era indisposição, mas aquela sensação de que não se precisa ter pressa.
Fui no meio da manhã.
Há uma espécie de estante gradeada que fica para o lado de fora da banca e em cada divisória, pilhas de um determinado jornal.
Procurei a minha, que geralmente é a maior.
Havia somente um exemplar,  o que me angustiou.
Eu deveria ter ficado feliz, afinal ainda havia um. Ao contrário, fiquei pensando que se eu demorasse mais um pouquinho só que fosse, ficaria sem o jornal.
Peguei-o e me dirigi para o interior da banca. entreguei o jornal ao jovem que me atendia e precisava registrar o jornal em alguma maquininha que emite luz.
Não me contive, precisava me aliviar daquela sensação.

Acabou mesmo o jornal, ou você tem outra pilha aí dentro?

Não, acabou mesmo - respondeu-me com um sorriso na voz.

Nossa, tão cedo né? Costuma ter bastante até na hora do almoço.

Pois é, a senhora não vai acreditar. Um homem levou seis.

Eu espalmei a mão esquerda próximo ao meu rosto e coloquei o dedo indicador em riste para em seguida repetir incrédula:

Seis?

Isso mesmo, seis - agora ele respondeu com um ar de graça na voz.

Meus cotovelos estavam falantes e eu fui logo emendando - poxa, seis... ah e você não morreu de curiosidade para saber o que ele faria com seis jornais? Eu já teria perguntado, não me aguentaria. Sabe, eu costumava encontrar um senhor, na outra cidade, quase todas as vezes que eu ia comprar o jornal de sábado e ele sempre pedia dois. Num sábado chuvoso ele me olhou, devia ser nosso terceiro esbarrão, e disse que sempre levava dois jornais, um para ele e outro para a mulher. Achava muito incômodo estar lendo e ela ali pedindo me passa o caderno internacional, já terminou a política. Eu não gosto de ser importunado enquanto leio, então resolvi esse impasse. Sempre compro dois.

Num outro sábado de verão, após um bom tempo sem reencontrá-lo, lá estava ele. Pediu na minha frente um jornal. Acho que ele deve ter lido meus pensamentos, ou os meus olhos transmitiram a minha indignação.

Abriu um sorriso e disse apenas - minha mulher está na praia!

Então eu realmente teria perguntando a esse sujeito por que levar seis jornais iguais.

A senhora não vai gostar da resposta, agora um sorriso maroto acompanhou a resposta.

Suspendi as sobrancelhas.

Para os cachorros. Ele leva os jornais para os cachorros.

Baixei as sobrancelhas e caímos na risada ao mesmo tempo!

Uau! Jornal fresquinho hein? Que luxo com os cães.

Já sei que em qualquer outro sábado que eu queira comprar jornal, é melhor chegar antes do homem dos cachorros!


5 comentários:

Emmanuel disse...

Deus vos abençõe!
Immanuel

✿ chica disse...

rsssss...

Muito legal e realmente o jornal de domingo é recheado de ofertas mirabolantes de carros, apartamentos, tudo mais.

Se duvidar, até a vó é vendida por lá, a preço baixo,rs..

E esse homem dos seis jornais? Entendo , pois aqui, quem não se apressa a ler , vai logo para os aposentos da Cuca...


beijos, lindo domingo e gostei ,achei bem certa tua colocação por lá quanto aos cadeados.

Também não gosto! chica

Carmem Grinheiro disse...

E essa, hein!

bom domingo, Ana Paula =)

Tina Bau Couto disse...

Sério?
Eu sempre baguncei o jornal de meu pai e ele detesta jornal mexido
Acho tão mais humanizado o jornal mexido
Tão ter alguém
Tão bom dividir
Mas
Cada um com suas manias
Lembrei de Pe Fábio que contou que reclamava dos papéis da mãe, com anotações dentro da Bíblia e hoje ele faz igual com riso de canto de boca
Quanto aos jornais do dia para os cachorros, será como a água fresca de meu pai para os pássaros ?

Poesia do Bem disse...

Que história! heeh e eu sou das que ler, bagunça e depois guarda os velhos jornais pensando nas artes de Alice, pra por na mesa e não sujar d etinta, pra recortar paraa tividades , mas por aqui não temos mais banca de jornal, só entregam aos assinantes