domingo, 26 de maio de 2013

A doçura do pequeno príncipe

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Cheguei a um ponto de não suportar mais essa frase.
Na minha adolescência eu exerci uma função bastante peculiar: eu era revisora ortográfica dos rascunhos que se transcreveriam para os mais belos e enormes cartões ( era uma época de cartões gigantes, nem sei se ainda existem ). Eram escritos pelas minhas amigas do colégio quando o namoro se desfazia e entre lágrimas, sempre a esperança de uma última tentativa de reatarem os laços.
E lá nos rascunhos, entre as promessas de mudanças, as explícitas declarações de amor, lá vinha a frase do principezinho. Ela era a cobrança disfarçada, a encostada na parede, a chantagem mesmo.
Até sugeri algumas vezes que fosse retirada, mas a inconsolável amiga aceitava retirar todo o resto, mas manteria a frase a qualquer custo.
Uma das vezes que li o pequeno príncipe senti-me imensamente compelida a saltar aquela página e o fiz. A frase, mesmo depois de uns vinte anos dos cartões gigantes, ainda me causava mal estar.
Mas ocorreu um fato em nossa vida familiar que eu senti uma necessidade inexplicável de recorrer ao pequeno príncipe e sua frase imortal.

Mudamo-nos em dezembro de 2011 e entre todo o tumulto nos grandes centros urbanos pelas festas de final de ano, eu precisava descobrir onde encontrar o melhor pãozinho, conhecer pizzarias, olhar a localização da farmácia, pesquisar o preço dos cabeleireiros e foi num final de tarde, com o sol de horário de verão já ameno que eu e as crianças nos deparamos numa esquina com um "carrinho" de caldo de cana.
Nada de pastel, de feira, apenas caldo de cana, garapa.
Experimentamos e a simpatia do dono do negócio, aliada à beleza de seus apetrechos e a doçura da cana, cativou-nos.
Durante um ano inteirinho ele estava lá. Nas maioria das vezes somente um cumprimento acompanhado de sorriso; nas outras quando o corre-corre permitia, uma pequena pausa.
E assim surpreendíamos a nossa rotina com um copo de doçura.
Chegou outro dezembro, a mesma correia e quando sentimos a garganta clamar por uma "cana geladinha" nosso conhecido não estava lá.
Férias - anunciei para as crianças. Ele também merece! Logo volta.
Arrancamos do calendário a folhinha de janeiro, fevereiro, depois março. 
A esquina continuava vazia. Vazia modo de dizer. Vazia de caldo de cana porque sempre havia um carro estacionado no lugar.
Abril foi o mês da desesperança. Ninguém tomar uma garapa na feira. Na kombi barulhenta, sem pano de prato alvo e com crochê nas bordas.
O que teria acontecido? Morreu? Arrumou lugar melhor para trabalhar? Um feira, talvez?
Olhei para o poste na esquina que o carrinho da cana estacionava. Podia, deveria haver ali um cartaz colado, uma explicação, afinal "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas".
Qual foi nossa surpresa quase arrancando a folhinha de maio, quando caminhávamos rumo à esquina? Ele havia voltado!
Ele usou sabiamente a frase do pequeno príncipe e não nos deixou sem o doce néctar da cana!
Sentei, primeiro com o Bernardo, depois, à tarde com a Júlia e à noite acompanhei marido ( só tomei um copo, tá? ). Todos que passavam, era inevitável a pergunta. Eu nem precisei perguntar, fui logo sabendo: foi passar férias com a família na casa do pai; os problemas eram muito, foi ficando, ficando.
Voltamos a ter um motivo doce para acomodar os ânimos, o calor ou a simples vontade de um caldo de cana!








25 comentários:

Lola disse...

Que bom q
ue ele voltou para a alegria da família de vcs! Nunca tomei o tal do caldo de cana, não vejo lugares para vender por aqui. É assim que se cha, garapa??? Nossa, tem vezes que acho que o RS é outro país(ou eu vivo em outro mundo, eheh)
Beijõess, estava com saudade dos teus posts!
http://antonellaesuaboneca.blogspot.com.br/

Kellen Bittencourt disse...

Oiii Ana, adoro caldo de cana, ,mas faz tempo que não tomo, tomava muito qdo criança! Amiga ouvi essa frase uma unica vez de um antigo namorado, ele gostava muito de mim mas percebeu que eu estava escorregando e me disse isso, nunca esqueci, não fiquei com ele mas ele conseguiu registrar p sempre na minha memória aquele momento rsrsr Bjooosss

Gracita disse...

Oi Ana!
Que alegria para vocês a volta dele. E com a volta dele frase adquiriu outro significado pra você né.
Afinal ela cativou toda a sua família sem forçar nada. “Uma amizade verdadeira é um tesouro que não se pode perder.” Vim cultivar a minha ! Deixo-te meu carinho e meu abraço. Que a sua semana seja cheinha de paz, amor e boas energias.
Beijos
Gracita

Patricia disse...

Nossa, que limpinho o carrinho dele!
Adoro caldo de cana.
Bom demais ser servido por pessoas com sorriso no rosto e mínimo de educação, esta foi uma das maiores saudades de voltar para sp. No rio, não generalizando, mas em sua maioria (rs) o povo é muito mal educado. Foi o pior serviço que recebi na vida, da faxineira ao bancário, do moço da pipoca ao vendedor de carro. Nem falo das caixas do mercado, dava vontade de sair sem comprar o arroz.
Bjs e boa semana

✿ chica disse...

Que legal e sabes que nunca tomei esse caldo de cana? Inacreditável,né? beijos, obrigadão pelo carinho e tudo de bom,chica

Calu disse...

Totalmente apropriado o uso da repetida frase e neste teu motivo, deixou de lado o sentido de cobrança revelando apenas a falta da presença atenciosa e doce do vendedor de garapa.Cativante!

Dias doces pra vc.
Bjos,
Calu

Amara Mourige disse...

Ana, que bom que ele voltou e cativou a família toda!Lindo a carrinho dele!
Beijos
Amara


Poesia do Bem disse...

Sabe que lendo teu texto, me veio a lembrança de que eu na minha adolesc~encia lia as frases do pequeno príncipe em adesivos que eram grudados no guarda -roupa da filha da minha vizinha rica, que eu ia lá pois era muito amiga da empregada da casa, e lia e me apaixonava sem conhecer o autor, sem saber muito da história.Lia frases do livro e sentia vontade de conhecer mais.Assim só pude comprar um na minha fase adulta e li pra Alice já. Ela ama tbm memso sem entender totalmente claro.Do caldo de cana lembro de quando meu pai trazia do sítio e nós chupávamos.O Caldo nunca tive muito apreço.

Blog do Óbvio - Manoel disse...

Ana Paula, essa foi uma linda crônica. A crônica fica bem quando a escritora pega a gente pela mão, vai levando em todos os lugares que ela cita, vai mostrando os acontecimentos e criando situações para a gente "brigar" pelas opiniões dela e a diferença de talento, em relação a qualquer outro escritor aparece na pitada de amor que ela tem no coração e também consegue fazer o nosso vibrar de alegria quando os amores da cronica sempre dão certo.
Deu até vontade de tomar garapa.
Beijo
Manoel

#*Marly Bastos*# disse...

Pois é, quando somos cativados por alguém, ela tem [ou deveria ter] uma responsabilidade para conosco.
Eu adoro caldo de cana e quando é tudo limpinho, tomo caldo até a barriga doer.
Que bom que voltou! Só um conselho: Leve todo mundo de uma vez, pq isso engorda demais!
bjkas doces e boa semana.

EdeEtienne disse...

Ana! Doçura... lindeza e delicadeza nesta sua contação de história! (E senti saudade de chupar cana tirada do pé... Do caldo de cana das esquinas do Rio de Janeiro! "Tomei só um copo"... rsrs.) Boa noite. Bjs.

Lacorrilha disse...

É uma vergonha mas nunca li esse livro. Mas fiquei rendida ao teu post. Beijocas

Tina Bau Couto disse...

Eu amo o pequeno príncipe, tu sabes.
E amo caldo de cana tb.

Eu chupava muita cana, pedacinhos descascados e espetados em palitos, na infância, depois passei para os caldos, que por aqui sumiram com boatos e verdades sobre os barbeiros, doenças, falta de higiene.
Não há, nem nunca houve por aqui um carro assim de caldo de cana (sugere a ele um primo e uma filial aqui), eu com certeza seria freguesa e tomaria um copão (adorei esse nome), a cada ida, pelos meses sem o néctar.

Quanto a revisar e até escrever cartões, bilhetes e cartas para namorados alheios também fiz muio isso, que bizarro!

Boa e doce semana para nós, com sabor puro ou com abacaxi, os únicos que já provei.
Qual o favorito de vcs?

Moro em um Kinder Ovo disse...

Salivei e preciso encontrar um lugar para tomar uma garapa!!! Sempre fico encantada ao ver como você tem curiosidade em conhecer gente,suas histórias de vida e assim vejo nascer uma linda crônica.

lis disse...

OI Ana
Realmente essa frase é famosérrima rs
e contém sim alguma verdade ,como contaste no seu texto,
...e a responsabilidade de ter despertado o bem-querer , da cumplicidade por ter cativado? onde fica? rs é aí que ela encaixa bem,rs
és uma excelente escritora AnaPaula,
quero muito seu livro _ falta-me ainda o tempo de tomar as providências rs
beijinhos tô retornando...

Tina Bau Couto disse...

Fiquei curiosa para saber o nome do moço, vc me conta?

Anne Lieri disse...

Adoro o jeito que vc conta suas histórias do cotidiano.A frase do pequeno principe é mais que batida,tem razão,mas ainda funciona!...rss...bjs e boa semana,

Imaculada disse...

Querida Ana Paula!
Que lindo te ler!!!
Sua forma de escrever cativa-me...
senti vontade de tomar caldo de cana.
Amo o Livro do Pequeno Príncipe, estou lendo o Retorno do Pequeno Príncipe.
Abraços! Uma semana abençoada e feliz pra ti.

Dama de Cinzas disse...

Você tem talento para escrever crônicas. Consegue pegar o simples e tornar numa bela história que prende.

Sim a frase fez todo o sentido nesse caso.

Beijocas

VERINHA TIBURSKI disse...

Olá Ana
Arrancaste de mim uns ais e mais ais de saudades desta bebida, também conhecia por garapa. Aqui em Muaná não tem nem sei se eles sabem o que é. bom até eu fiquei apreensiva por um final feliz, que bom que ele voltou e que capricho esta barraquinha, iria adorar tomar uma garapa por ai.
Lindo texto Ana, quanto a frase com certeza tem seus fundamentos é um cativar mais forte pelo carinho.
Um lindo dia. Beijos.

Alê Lemos disse...

Eu odeio essa frase! kkkkk é claro q foi bonitinho o modo como vc a utilizou, mas sei lá, não acho que o pra sempre sempre ocorra. Já pensou ser culpado pelas coisas erradas q os outros fizeram? aí nunca iriamos pro céu. o destino da humanidade seria o inferno kkkkkkk afinal não falhamos o tempo todo?

Rovênia disse...

(risos) Lembra a minha infância. Mas hoje acho tão doce... A história é linda e a raposa tinha razão, não é?
Beijos, amiga! :)

CamomilaRosaeAlecrim disse...

Menina...que legal isso! Como as pessoas nos cativam e como cativamos pessoas e pensar nisso as vezes é importante!
Fiquei é com vontade do caldo de cana que por sinal te um tio da combi aqui na minha cidade em uma esquina tb...mas não passo muito por lá, porém, quando passo, lá está ele há anos! E no verão o tio da combi do caldo de cana é essencial para matar a sede com um docinho saudável!
parabéns pelo texto e pelas fotos!
Bjs e que seu dia seja ótimo!
CamomilaRosa

Nina disse...

Eu acho a frase uma cobranca desnecessária, me sentia sempre culpada por nao ser suficientemente cuidadosa com meus amigos, p ex. Ms adorava aquela: o essencial é invisivel aos olhos, tao propagandeada qt a outra :-)

Que texto lindo, Ana, tao bem escrito! Doce como o caldo de cana. É esse o da foto? Confesso que ja gostei mais, mas os pontos de venda geralmente eles sao tao feios e mal cuidados que passei a ter medo de ficar doente... mas esse que vc mostra aqui, realmente, passa uma otima impressao.

Bjs pra vcs

Ana Virgínia disse...

Oi Ana.

Essa frase é bastante popular e, às vezes, eu também já fiquei meio enjoada dela.

Mas, quando a vivenciamos, vemos que faz sentido né?

Também sinto falta de algumas pessoas que me cativaram, por seu jeito de ser...

Também amooo caldo de cana. E não acho nenhum pecado você ter tomado vários copos de caldo de cana quando o moço voltou e você também voltou com as crianças...

Abraço.

Filha de José.