quarta-feira, 1 de maio de 2013

Trabalho: ser pantaneiro

Numa postagem anterior sobre meu autor favorito, recebi comentários interessantes e um deles mencionava as barreiras do pantaneiro, que eu vou traduzir em preconceito e acredito que meu próprio autor favorito Manoel de Barros também deve ter sentido na pele.
E fez poesia sobre o assunto:

LIDES DE CAMPEAR

Na Grande Enciclopédia Delta-Larousse, vou buscar uma definição de pantaneiro: "Diz-se de, ou aquele que trabalha pouco, passando o tempo a conversar".
Passando o tempo a conversar pode que se ajuste a um lado da verdade; não sendo inteira verdade. Trabalha pouco, vírgula.
Natureza do trabalho determina muito. Pois sendo a lida nossa a cavalo, é sempre um destampo de boca. Sempre um desafiar. Um porfiar inerente. Como faz o bacurau.
No conduzir de um gado, que é tarefa monótona, de horas inteiras, às vezes dias inteiros - é no uso de cantos e recontos que o pantaneiro encontra o seu ser. Na troca de prosa ou de montada, ele sonha por cima das cercas. É mesmo um trabalho na larga, onde o pantaneiro pode inventar, transcender, desorbitar pela imaginação.
Porque a maneira de reduzir o isolado que somos dentro de nós mesmos, rodeados de distâncias e lembranças, é botando enchimento nas palavras. É botando apelidos, contando lorotas. É, enfim, através das vadias palavras, ir alargando nossos limites.
Certo é que o pantaneiro vence o seu estar isolado, e o seu pequeno mundo de conhecimentos, e o seu pouco vocabulário - recorrendo às imagens e brincadeiras.
Assim, o peão de culatra é bago-de-porco - porque vem por detrás. Pessoa grisalha é cabeça de paina. Cavalo corredor é estufador de blusa. Etc.etc.
Sente-se pois então que árvores, bichos e pessoas têm natureza assumida igual. O homem de longe, alongado quase, e suas referências vegetais, animais. Todos se fundem na mesma natureza intacta. Sem as químicas do civilizado. O velho quase-animismo.
Mas na hora do pega-pra-capar, pantaneiro puxa na força, por igual. No lampino do sol ou no zero do frio.
Erroso é pois incutir que pantaneiro pouco trabalha. Ocorre que enxertar a vaca a gente não pode ainda. Esse lugar é difícil de se exercer pelo touro. Embora alguns o tentem.
Vaca não aceita outro que não seja touro mesmo. O jeito é ficar reparando a cobertura e contando mais um bezerro daquele ato.
Só por isso se diz que o boi cria o pantaneiro.

Manoel de Barros


Todo trabalho digno tem sua beleza e poesia.

8 comentários:

✿ chica disse...

Ele, com seu modo peculiar, fala de tudo muito bem! beijos,chica

Moro em um Kinder Ovo disse...

Tempos atrás um sobrinho (baiano) participava de um processo de seleção. Na ultima etapa, depois de ter vencido mais de 50.000 candidatos em etapas via internet, conheceu os 100 últimos que disputavam as poucas vagas disponíveis. Neste dia ele viu que não ia conseguir porque era o único nordestino no grupo. O preconceito existe sim.

Tina Bau Couto disse...

Exite sim e existia agora de forma bem pitoresca, como nunca imaginei haver
Estive pesando nisso ontem nos pantanos que me separar do mundo de hpje
A pessoa ser comum, no vestir, falar, viver. Ser casada, fiel, católica, não ter facebook, não beber, não fumar, não concordar com a pregação do homosexualismo, não tre nenhnum tipo de vício nem seguir nenhuma causa ou ideologia da moda, ser nordestino, não gostar de axé, pagode, funk e sertanejo universitário, é quase uma configuração de um ser et, indicada a ir a uma terapia e tida como alguém fora do normal, desantenada, pantaneira.

Sophie disse...

Wie wahr <3

Liebe Grüße
von Sophie

Alê Biet disse...

Ana, que lindo!

Nós goianos sabemos bem o que é isso! Nada de rancores! Tudo isso é maravilhoso!


"Aos olhos dos viajantes, Goiás era uma terra sem futuro". Seus habitantes eram vistos como preguiçosos, plantava-se apenas o que necessitava.
Chaul faz uma análise seguindo os historiadores contemporâneos, com a concepção de que fatores internos e externos foram causadores da "decadência" como, por exemplo: falta de braços escravos, mínima urbanização, preguiça, baixa produção e outros. A "decadência" passou a ser o conceito da situação de Goiás no período pós-mineratório, tornou-se sinônimo da Republica Velha por seu atraso, uma sociedade que parecia não possuir nem o básico para existir devido a sua falta de produção, sua carência de tudo.
O que é ser goiano? Que bicho é esse com o qual agora começam a se preocupar os estudos brasileiros em geral. Um Jeca Tatu? Um sertanejo preguiçoso? Como se denominaria esse matuto macunaímico que vive entre o sertão de Guimarães Rosa e as veredas de Carmo Bernardes? misto de agrário e urbano, roça e cidade, curral e concreto? Nós de Goiás, que por tanto tempo vivemos à sombra da história definida pelo centro-sul do país, quem somos, ou melhor, o que nos tornamos?
Em Goiás, caminhando pelos relatos dos viajantes, cronistas, governadores e historiadores, a distância de cada olhar se torna maior que o caminho das interpretações. As picadas e trilhas formaram, ao longo do processo histórico, um mapa quase invisível de latitudes interiores, por onde Bartolomeu Bueno, o filho, procurou-se guiar e os historiadores de toda cepa procuraram nos remeter, dando nos rótulos, estigmas e heranças imerecidas de como deveríamos ser ao olhar do outro.
Culturalmente, porém, somos fruto de uma mestiçagem maravilhosa, resultado dos elementos que nos compuseram e nos legaram um potencial fantástico de traços culturais entre o índio nativo, o negro africano e o branco europeu, traços estes que podem ser encontrados da literatura às artes plásticas, passando pela música e pela dança. Somos o arquétipo do desejo da realização, a vida comunitária dos índios que os hippies tentaram um dia adotar, somos a secular batucada e ritos africanos, onde os Kalunga nos guardam desde tempos imemoriais. Somos a modinha lusitana nos saraus de Vila Boa, o traço europeu nas óperas dos barracões de Meya Ponte, hoje Pirenópolis, somos ainda a herança espanhola ou portuguesa das cavalhadas, a viga mestra do cristianismo na procissão do fogaréu na Cidade de Goiás e somos mais ainda nós, os goianos, os homens pardos de que nos falou Luiz Palacin, na catira, nas folias de reis e do divino ou na dança do congado de Catalão, pantaneiro ou sertanejo seja lá o nome que nós dá somos goianos.

Chaul,Palacin, Alê Biét.

Beijos!

Blog do Óbvio - Manoel disse...

Ana Paula, muito bacana essa postagem. O pantaneiro én o cara bom de papo. Além de trabalhar direito ele tem muita história para contar.
Pode até fazer um blog, não é?
Beijo
Manoel

EdeEtienne disse...

Todo trabalho digno tem sua beleza e poesia. Sim! Sim!

Rovênia disse...

Fácil demais achar fácil o trabalho dos outros! É preciso admiração! :)