terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A rotina da leiteira




Quando se vai morar em casa alheia, seja lá quais forem o motivo que te levaram a isto, além de gratidão pelo acolhimento, deve-se atentar a uma atitude essencial – não interferir na rotina e sim se adaptar.
Aconteceu comigo e tudo ia bem até que eu comecei a ter problemas com a leiteira.
Leiteira, utensílio para ferver leite e água também. Também dá para fazer mingau. Ah e cozinhar ovos.
No convívio com a família começou a incomodar-me a tal leiteira.
Tentei argumentar sobre algo ter mais moderno, com antiaderente, uma leiteira que poderia servir também como objeto decorativo, já que a família era abastada e dinheiro não seria o problema para a aquisição, mas ouvi um delicado e firme “não”acompanhado de uma explicação: fora presente de casamento ( lá se iam 35 anos... ).

A rotina da leiteira:
Antes das cinco horas da manhã, ela fervia a água para o café e logo após, era colocado cerca de meio de litro de leite para que se aferventasse daquele jeitão de ficar ali na beira do fogão e esperar que o leite subisse até quase derramar. Girava-se rapidamente o botão para apagar o fogo e ao mesmo tempo um bom sopro para que o leite não ultrapassasse os limites devidos.
E a leiteira ficava ali, do fogão para a mesa, da mesa para o fogão.
A medida que os membros da casa iam se levantando, solitários, ou no máximo em duplas, lá ia a leiteira para o fogão aquecer o leite.
Para os que não estão habituados à esta antiguidade, é preciso esclarecer: da primeira fervida, assim que o leite abaixava, ficava uma fina crosta grudada no alumínio. Conforme os demais voltavam a aquecer o leite, a crosta ia ficando queimada. Não tipo carvão, mas começava com bege claro.
O último a aquecer o final do leite podia até ouvir pequenos estalidos das crostas que a essa altura eram cascas.
Onde entra o problema?
Tudo era colocado na pia e a louça era de minha responsabilidade.
Então somente quem já passou por isto vai entender o que estou dizendo. Lavar uma leiteira incrustada de leite de 35 anos de idade, o que significa que a cada tombo que ela levou em sua vida ficou amassada, formando fincos internos onde a crosta insistia em se fixar, é de fatigar qualquer nervo.
Tinha que deixar de molho, pegar bucha no lado grosso, apelar para a palha de aço e palito de dente e para disfarçar na hora de enxugar era unha com pano de prato para tirar os últimos vestígios.
O microondas lá, só me olhando.

Por que eu não aquecia o meu leite no micro?
Preciso confessar uma coisa. Não existe nada melhor que um leite fervido e aquecido depois formando crostas e cascas. Fica um gostinho de doce de leite inigualável!
Agora, há quem diga que pior que lavar leiteira é lavar louça de moqueca carregada no dendê. Aí já não sei...
Se quiser se divertir com mais louça suja, na visão de um homem, leia aqui.

20 comentários:

✿ chica disse...

Ana Paula, tu és demais. Cada uma que te passa na cabeça!! Sei bem dessas leiteiras e apesar de ter o gostinho bom do leite, prefiro as moderninhas,rs e o micro...Pode não ter o mesmo gosto, mas sobra mais tempo pra blogar, por exemplo,rs...

E o Fabrício arrasa sempre.Ele é DEZ e se o vês na rua, é simples assim como o que escreve.,Adorei te ler !!bjs praianos,chica

Nyce Pinto. disse...

Adorei a estória da leiteira!!! Mas com certeza, assim como a personagem, não gostaria nada de lavar essa "bendita" leiteira rsrssssssss... Tenha uma semana de paz e alegria! Abraços..

Felisberto Junior disse...

Olá!Ana Paula
puxa, a leiteira e lavar louça, rendeu uma bela crônica.
A do Carpinejar, já tinha lido, afinal,queria aprender a ser um bom lavador de louças.
E como dito, lavar louça é para profissional. Requer planejamento. Não dá para mudar as regras no meio do jogo.E aqui em casa tem as regras. Na rotina,só uso descartável.E quando com visitas...sim,são eles que tem que se adequar à minha rotina , as "retardatárias" na pia, quem fizer isso, que lave a peça.
E como a minha filha não me ajuda nisso, nem como auxiliar - secadora, resolvi que lavo toda a louça e até que sou bom para arear panelas.Ah sim e tem a regra de que enquanto lavo louça, ninguém pode assistir televisão e usar computador. Normalmente, vem vários me ajudar, não sei o porque!
Boa noite, obrigado, belos dias, beijos!

disse...

Ai eu me apego nesses utensílios que contribuem para o sabor. Aqui temos uma "bauruzeira" (ou sanduicheira nos outros lugares do mundo) de alumínio que leva pão de forma, presunto e queijo direto pra chama do fogão. O sanduíche que sai dali, besuntado com manteiga pelo lado de fora, é muito , mas muito melhor que aqueles feitos no grill ou na sanduicheira elétrica. Acho que é um parente da leiteira, porque ela vive cheia de pretinhos irremovíveis e que, de acordo com meu irmão, são os responsáveis pelo sabor único do nosso bauru.
Ah, se ainda estiver em tempo, feliz ano novo Ana Paula :)

Rovênia disse...

(risos) Tradição é tradição... :)

Tina Bau Couto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Tina Bau Couto disse...

Senta que o papo vai ser longo...

Louça de dendê requer molho e depois passagem de toalha de papel se a cozinha for chique ou de saco de pão, tb vale jornal, caso não seja. Depois bucha carregada no sabão, dos líquidos baratinhos nem tente, tem que ser do bom ou do de massa, Vim (saponáceo) é o céu.
Vale a trabalheira pelo sabor dos deuses, mas também vale arquitetar para esse não ser o seu dia da louça.

E nada de deixar pingar o dendê na roupa, avental ou panos de pratos, se não outra via-crucis será seguida na lavanderia.

Qto a leiteira eu acho que tem certas coisas que novas não são legais, como que na canção de que panela velha é que faz comida boa. Chinelinho velho entra na lista, tão mais nosso que os novinhos, andam quase que sozinhos, não pesam e sabem os caminhos por onde vamos.

Leite fervido: AMO!
Amo o cheiro, a cena, o gosto, a nata formada para ser passada no biscoito Cream cracker regadinha de açúcar (note que comigo não ia sobrar crostas).
Crostas e vincos para serem lavados, nada de palitos ou minúcias, o temperinho fica nesses pretinhos, nessa marcas de uso, que são como rugas. Prefiro uma carinha enrugada que conta histórias que uma de detox que nem se move.

Aquiete viu e crie ai uma leiteirinha dessas.

Moro em um Kinder Ovo disse...

Ri muito - com você e com o outro cronista - e veja que do norte a sul todos nós temos os mesmos problemas na hora de lavar a louça. Marido sempre reclama que eu sujo muita coisa quando estou preparando e que o trabalho dele fica mais pesado. Vou já imprimir para mostrar para ele como todos nós somos iguais diante de uma pia. Lembrei agora de um comentário da minha mãe: a pia é o pior lugar da casa, tudo se passa às nossas costas e ficamos alienadas.

JAN disse...

Oi Ana Paula!
Prefiro a praticidade do microondas.
E olha que sou "antiga"...;-)
Gostei da postagem e imaginei minha cozinheira (ela come as unhas) lavando uma leiteira dessa rsrsrs.

Abração
Jan

Blog do Óbvio - Manoel disse...

Ana Paula, sensacional essa postagem(Tanto a sua como a do Fabrício). É exatamente isso que acontece. Consegui minimizar o incomodo do trabalho com a motivação do capricho.
Hoje em dia quando lavo um copo, capricho tanto na lavagem que depois olho para ele e digo para mim mesmo: "Vá lavar bem assim louça na...". E fico realizado aguardando os elogios da família, kkk!
Beijo,
Manoel

Suzy Rhoden disse...

Ana Paula, como é que você tira um texto dessa qualidade de uma leiteira?! Tens que me ensinar a técnica, o modo de ver o comum com olhos incomuns... AMEI a história toda e, confesso: entendo de leiteiras incrustadas! Coisas de quem saiu do interior... Tua descrição é que me encantou, pois vi cada detalhe da árdua tarefa ali reproduzido. Pode ter o melhor gosto do mundo, mas nesta época de praticidade e falta de tempo, sua protagonista tem mais é que dar jeito na aposentadoria... rsrsrs

Beijo grande, até!

Calu B. disse...

As duas funções são muito minhas conhecidas.Décadas seguidas acompanhei minha leiteira em suas idas e vindas do fogão p/mesa e desta para o outro, com destaque ao fato de que ela continha capacidade para "cinco litros"...n'era moleza, não.E aos domingos/feriados os lastros de dendê decoravam a caçarola gigante, haja disposição.
Hoje sou fãzoca do micro-ondas e do leite de caixinha só não existe ainda opção para o dendê.Ô coisa!!!
Gostei demais do bate-papo, menina.
Bjos,
Calu

Thainara disse...

Ola amiga boa tarde, que Deus sempre esteja com você seu blog é lindo beijus:Siga meu blog se gostar dele:http://oficialgarotateen.blogspot.com.br/

Cecília Romeu disse...

Muito bom, Ana Paula!
Entendo perfeitamente as peripécias tuas com a tal leiteira... toda vez que vou na mãe é mais ou menos isso que passo. E a louça sobra para mim... já que não gostou e nem sei cozinhar direito.
Curioso, porque a mãe faz tudo no microondas, até arroz, mas o bendito leite tem que ser na leiteira.hahaha
mas é melhor mesmo!

Ótima crônica!

Já estava com saudades da tua escrita, mas tenho postado menos e só consigo tempo para visitar o pessoal, quando publico.
(ou seja, sempre uso microondas! :)

Graziela disse...

Essa historia de assoprar o leite quando esta' subindo e' ensinamento dos antigos ne'?
(minha avo' me ensinou isso rsrs e faco ate' hoje).
Sei o que passou ao lavar a leiteira amassada, aqui em casa tem uma assim e para ajudar ainda esta' sem cabo. Imagina a situacao.
Mais uma vez adorei seu conto.
Abracos
Gra'

Beth/Lilás disse...

Ah Ana Paula, ler você é uma delícia!
Parecia que eu estava vendo a leiteira de minha irmã, pois ela também tem esta mania de usar leiteira para ferver o leite, e eu já lhe falei e mostrei umas tantas vezes o quanto o micro-ondas é melhor, mas não adianta, ela adora leite e usar desse jeito. A diferença é que a leiteira dela não é tão velha quanto esta que nos fala. Deve ter sido punk pra você este trabalhinho enjoado todos os dias.
Adorei a crônica!
beijo grande carioca



Christian V. Louis disse...

Olá Ana, vejo que também retornou à blogosfera. Parece que há um "imã" que nos puxa para cá, não é mesmo?
Sempre me impressiona sua fluidez nas narrativas acerca de coisas simples, cotidianas.
Estou diminuindo consideravelmente leite e seus derivados, contudo, quando consumo, consumo gelado e os de caixa, muito mais prático.
Não compreendo muito esta resistência que algumas pessoas têm com tradições ao passo que as coisas cada vez mais são facilitadas. Nostalgia, medo do novo, de encarar que as coisas passam e mudam... não entendo. Praticidade é tudo.
Abraço!

Rob Novak disse...

Já lavei muita leiteira depois de algumas horas de molho na água para amolecer essa bendita crosta..rsrs
Quando fui morar sozinho, comprei uma com antiaderente, a qual nunca uso, visto que o micro-ondas é sempre mais cômodo. Mas, minha mãe, quando a leiteira antiaderente que dei para ela está ocupada, sempre volta a usar a antiga, de uns 35 anos de idade também..rsrs..

Bom texto. Gostei do ritmo da sua escrita.

Tina Bau Couto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Tina Bau Couto disse...

Posso discordar de um comentário?

Seria prático eu ler, discordar da afirmação e deixar quieto, mas tenho o hábito de nem sempre ser prática.

Acho que esse gosto comum, nem melhor, em pior do que o tb comum das modernista e praticidades não é medo, nem resistência. Tem um quê de tradição, nostalgia(que faz bem na medida como td) e tb de sensibilidades mais apuradas de gosto, aroma, versatilidade...

Tudo de um é nada pro outro, pode-se misturar de td um pouco, só não pode é ser td mundo igual se não azeda q nem pingo de limão no leite fervendo.