sábado, 22 de fevereiro de 2014

Carinho de vento




Apressada, chaveou o portão e entre guardar as chaves na bolsa, olhar para os lados para atravessar a rua, deparou-se com o que chamou de “uma cena a ser retratada num quadro”.
Sentado, com as costas recostadas num muro pichado, estava um homem. Precisar sua idade era difícil; tinha na pele todas as intempéries do tempo e talvez carências de afeto. Talvez...
Tirou a pressa dos passos e passou por ele vagarosamente.
Comia bolachas recheadas de uma marca vagabunda e ao seu lado, também apoiado no muro, um maço de bambus.
Era um vendedor de bambus. Possibilitava que cordas, pregadores e roupas fossem alçados para mais perto do sol. Era um homem que ajudava o vento a acariciar roupas, cobertas, cortinas, toalhas.
A moça entrou no mercado. Passou pelo setor de máquinas de lavar e constatou como estavam avançadas. Trouxeram o vento e o sol para dentro delas. Eram máquinas modernas que além de lavar, também secavam toda a roupa.
As bolachas reachadas vagabundas que aquele homem comia não eram vendidas naquele mercado. É provável que ele nunca entrara ali. Não conhecia as modernas máquinas que aniquilavam seus bambus.
Sentiu um lamento dentro do peito. Um homem que tira seu sustento de vender bambus em ruas onde se erguem edifícios que não há lugar para bambus, apenas para máquinas que devolvem a roupa seca? E nas casas? Alguém na cidade compraria um bambu?
Retornou do mercado e ele não estava mais ali.
Entrou em casa, deixou as compras sobre a mesa e foi até o quintal.
Olhou demoradamente para o seu varal. Já estava bem curvado, feito sorriso em desenho de criança. Sorriu. Naquele momento soube que precisava de um bambu para o seu varal.
O homem estava certo em seu caminho: entre prédios, casas com máquinas modernas, haviam varais esperando para serem içados.

Tempos depois avistou o homem já longe, subindo uma ladeira, com seu feixe de bambus apoiado nas costas, ali pelos arredores. Deve ter voltado porque ouviu o chamado de algum varal, de algum lençol que desejava esvoaçar lá do alto.


18 comentários:

Poesia do Bem disse...

Dura realidade ainda dos homens sendo substituídos por máquinas, mas que teu coração alcançou.

manofernandes disse...

Ana Paula, que postagem gostosa de se ler. Fico muito feliz de saber que os varais ainda precisam dos bambus e que o sol ainda é o rei dos astros e a melhor opção para secar e "esterilizar" nossas roupas. Está faltando uma postagem do romântico QUARADOR que nossas avós usavam para deixar as roupas mais branquinhas. Linda a postagem, Ana Paula.
Beijo!
Manoel - Blog do Óbvio

✿ chica disse...

Te ler faz um bem danado! Nas coisas simples ,tanta beleza !

E uma pena que tudo esteja tão diferente. Nos apartamentos nem temos espaços para varais. São secadores de fios ou, conforme a idade e os joelhos da dona da casa, aqueles de chão, de abrir...

E nada supera o cheiro de uma roupa seca ao sol... Que pelo menos nas casas as pessoas usem os varais. Fico feliz ao chegar na minha janela, de onde vejo pátios, cheias de roupas ao vento e sol!

Lindo te ler! bjs, tudo de bom,chica

Calu B. disse...

Insistir em ajudar o vento,em trazer sorrisos aos varais, é sintoma presente n'almas simples, aquelas que realmente valorizam o belo e o bom.

Tua alma poética traduz nestas linhas as belezas simples e verdadeiras, Ana.
Uma igualmente bela semana.
Bjos,
Calu

Bia Hain disse...

Ana, que história doce! :D
A modernidade infelizmente tira mesmo o espaço de muita gente no mercado de trabalho, assim como capacita outros, mas há sempre varais à espera, até por que nem todos tem acesso aos luxos da modernidade. Nesse caso às vezes tenho medo da velocidade da evolução das coisas.
Lembrou-me as ripas que meu pai sempre preparou com um corte em V para sustentar os varais da casa da minha mãe, e que eu sempre saía correndo quando, quando já leve pela retirada das roupas, escorregava e caía em qualquer direção, hahaha!
Um abraço!

António Jesus Batalha disse...

Blog encantador,gostei do que vi e li,e desde já lhe dou os parabéns, também agradeço por partilhar o seu saber, se desejar visitar o Peregrino E Servo, ficarei também radiante
e se desejar seguir faça-o de maneira que possa encontrar o seu blog, porque irei seguir também o seu blog.
Deixo os meus cumprimentos, e muita paz.
Sou António Batalha.

Jussara Neves Rezende disse...

Que bela crônica, Ana Paula! Amei a caracterização do sujeito como "um homem que ajudava o vento a acariciar roupas, cobertas, cortinas, toalhas" - lindo!
Abraço!

Marli Soares Borges disse...

Que lindo, Ana Paula! Ajudar o vento, ouvir o chamado do varal! Coisas simples. Sqn. Adorei. Bjs Marli

Anne Lieri disse...

Lindíssimo seu conto,Ana! Nos dias de hoje ainda pode haver espaço para bambus! bjs e boa semana,

Ana Bailune disse...

Bom dia!
Que lindo texto! Que coisa, um homem que vendia bambus para varais!... Saudades da minha mãe estendendo a roupa no quintal. Eu, pequena, passando entre os lençóis olhados...

Moro em um Kinder Ovo disse...

Que linda crônica. Trouxe de volta um pedacinho do passado e fico pensando que nunca vi alguém vendendo bambu apesar de que na casa dos meus pais tínhamos bambus a levantar o varal. Eram tão naturais, estavam sempre presentes e eu nunca me perguntei de onde vinham.

Li disse...

Nossa, que belo texto!
Ainda bem que ainda restam pessoas como você que encontram poesia até nos bambus dos varais!!!
Saudades desse tempo...
Minha avó ainda estende roupas nos varais de bambu e ainda põe as roupas para quarar no sol....

Tina Bau Couto disse...

Nunca soube dessa varas, desses moços.

Lá na casa de minha mãe, ripas de madeira dos feitos de meu mais ou cabos daquelas vassouras de espanar o teto, faziam esse papel.

Tenho candura por pregadores e varais, temos não é mesmo :)

Bambu tem aos montes, fazendo túnel na entrada (e saída) do aeroporto daqui de Salvador. Incrível que não tenho nenhuma foto lá, vou te esperar para gente tirar juntas(os) \o/

Adriana Balreira disse...

Adorei o seu texto. Simples mas que nos faz refletir como a tecnologia faz com que várias pessoas percam o seu sustento em coisas que tornam a nossa vida urbana e mega tecnologica sem uso. Adorei
beijos
Adriana

Nina disse...

Qt delicadeza presente nos teus textos menina,tu tiras otimas coisas daquilo que nao se vê. Mt bom te ler Ana Paula, e adorei tbm o tirou a pressa dos pés...que lindo.

Tina Bau Couto disse...

* meu mais seria meu pai (certo de uma certa forma)

o s do dessas despregou com o vento :)

Pérola disse...

Histórias que retratam vidas reais.

Beijos

MARILENE disse...

Você colocou poesia em um jeito tão difícil de alguém sobreviver. E sua crônico ficou ótima. Bjs.