quinta-feira, 24 de março de 2011

A ausência

Tinha pensado num post com este texto, que é de um poeta indiano, que já citei por aqui, Tagore, para fazer no dia das mães.
Como ele me trouxe tantas reflexões, que seguem além das mães, não há porque esperar por uma data.
Reflexões que vão do Japão, Líbia, de uma pessoa que não vemos há muito, das que vemos sempre, das que não vemos enquanto estamos conectados...
Não tenho a data exata do texto. O poeta nasceu em 1861. E seu texto chama-se: A Ausência

(…)
Como exemplo,vou contar um de meus sonhos noturnos. Perdi minha mãe quando ainda era criança e cresci sem a presença dela a meu lado. Ora, na última noite, encontrei-me como um menino em uma casa de campo às margens do Ganges. Minha mãe estava ocupada, dentro de casa. Para a criança, viver na proximidade da mãe é coisa muito natural, e o pensamento da presença dela não ocupa constantemente seu espírito. Eu passava, por tanto, diante do aposento em que ela se encontrava sem lhe dar atenção. Repentinamente, não sei por quê, ao chegar no terraço, lembrei-me de que ela estava ali, bem perto; imediatamente, precipitei-me e lhe fiz meu pranam (saudação corrente na Índia para expressar respeito. A criança, inclinando-se diante da mãe, roca o pé dela com a mão direita e, a seguir, a leva até sua própria fronte.)
Ela me tomou pela mão e me disse, simplesmente: “Você veio...”
Meu sonho, que terminou neste momento, sugeriu-me algumas reflexões. Sob o teto familiar, um menino vai e vem, dez vezes por dia, diante da porta de sua mãe. Ele bem sabe que ela está ali, mas age como se a tivesse esquecido. Terá ele o sentimento de uma carência? De qualquer modo, ela enche o guarda-comida e prepara as refeições para ele ; quando ele adormece, ela está junto ao leito e o abana sem se cansar. Ele é cuidado, vestido, alimentado. Única diferença: ela não o toma pela mão nem lhe diz: “Você veio...”Entretanto a partir do dia em que compreende plenamente o preço de tal contato e de tais palavras, ele aspira tão somente a ouvir a voz de sua mãe e a sentir o calor da mão dela. E, caso a necessidade que ele tem dela não puder ser satisfeita, ele anda errante de aposento em aposento, na casa tão bem provida de tudo, mas na qual nada mais tem encanto ou sabor para ele.
Na sociedade de hoje raros são os indivíduos que sabem se aproximar realmente das pessoas ou das coisas que constituem seu meio(...)

Achei forte este texto, inspirador de muitas reflexões. Para mim, uma delas, é que deveríamos acabar aqui no nosso Planeta com o dito popular: só se dá valor depois que se perde”.
Não precisamos dar valor depois que perdermos. É sim possível estar presente, por inteiro naquele momento. Sentir, ouvir verdadeiramente.
Como disse um amigo: “Saborear a vida sem limite e sem tempo para começar ou acabar as coisas em sua vida. Existir dentro do momento.”

Um comentário:

Antonia Ivani disse...

lindo posta Ana Paula, fiquei comovida.
Perdi minha mãe aos dez anos e sei exatamente o que significa não ter a presença física.
Assino embaixo de seu texto final, quando diz que não precisamos dar valor apenas depois de perder.
Precisamos sim amar incondicionalmente, sabendo que um dia iremos embora, ou diremos adeus.
Beijo