terça-feira, 1 de março de 2011

O livreiro

Remexendo em guardados, encontrei umas folhas soltas onde eu havia copiado textos que a época tinha um significado.
Curiosamente, esses dias eu estava conversando com meu filho Bernardo sobre profissões extintas ou quase.
Falamos dos barbeiros, profissão que foi do meu pai, lembramos dos sapateiros, alfaiates e eu falei para ele do livreiro.
Lembrava quando na minha infância, meu pai me levava com ele a uma livraria. Pequena, abarrotada e lá havia o livreiro. Meu pai conversava com ele demoradamente, e eu sinceramente achava que depois da conversa nem era preciso comprar o livro!
Admirável alguém que sabia da vida de praticamente todos aqueles livros.
Encontrei esse texto de Monteiro Lobato que transcrevo lembrando dos livreiros.


O livreiro


Entre os mais humildes comércios do mundo está o do livreiro. Embora sua mercadoria seja a base da civilização, pois que é nela que se fixa a experiência humana, o livro não interessa ao nosso estômago nem à nossa vaidade. Não é portanto compulsoriamente adquirido.
O pão diz ao homem: ou me compras ou morre de fome. O batom diz à mulher: ou me compras ou te acharão feia. E ambos são ouvidos.
Mas se o livro alega que sem ele a ignorância se perpetua, os ignorantes dão de ombros, porque o próprio da ignorância é sentir-se feliz em si mesma, como o porco em sua lama. E, pois, o livreiro vende o artigo mais difícil de vender-se.
Qualquer outro lhe daria maiores lucros; ele o sabe e heroicamente permanece livreiro.
E é graças a essa generosa abnegação que a árvore da cultura vai aos poucos aprofundando as suas raízes e dilatando a sua fronde.
Suprima-se o livreiro e estará morto o livro - e com a morte do livro retrocederemos à idade da pedra, transfeitos em tapuias comedores de bichos de pau podre.
A civilização vê no livreiro o abnegado zelador da lâmpada em que arde, perpétua, a trêmula chamazinha da cultura

2 comentários:

Ivani disse...

olá Ana Paula, você está coberta de razão quando diz que algumas profissões estão quase extintas.
Felizmente Monteiro Lobato errou em suas previsões de que faltando o livreiro, acabaria o pouco interêsse pelos livros.
Milagrosamente, ou não, esse personagem foi substituido por catálogos, revistas informativas, estantes que chamam à leitura.
Amo livros, portanto, não preciso de atrativos para le-los, mas sei que ainda teremos um longo caminho até que a grande maioria da população também leia.
Um grande abraço e obrigada pelas visitas carinhosas.

Aleska disse...

Pode até ser que ele venda o produto mais dificil, mas a recompensa dele é grandiosa. Imagine que o cliente volte a loja e lhe conte o quão importante foi ler aquele livro e refletir sobre ele e principalmente pela mudança benéfica que aconteceu em sua vida. Beijos! Acho que você me deu uma idéia pro blog.