terça-feira, 9 de setembro de 2014

Até na igreja?


Estava resoluta. Não esperaria a virada do ano para fazer mudanças em sua vida.
Quem quer mudar, não espera calendário virar – repetia a si mesma.
Sentia-se pesada, não dava mais para esperar. Sequer esperaria pela segunda-feira.
Desejava uma vida melhor. Tomou banho e foi para a missa de domingo. Final de tarde.
Chegou atrasada.
  • Minha Nossa Senhora, isso não é um bom sinal – falou entredentes.
Deu de cara com o padre na porta da igreja, que aguardava o momento de entrar em uma pequena procissão.
Ele fez um sinal áspero com a mão para que entrasse logo e não ficasse ali atrapalhando.

Não sabia se devia benzer-se primeiro ou pedir a benção do sacerdote. Não fez nem um nem outro. Tratou de apressar o passo e foi procurar um banco para sentar-se.
Acomodou a bolsa com movimentos suaves e assim que o padre se posicionou no altar de frente para os fiéis para iniciar o cerimonial ela não acreditou no que viu.

Sentados dois bancos à sua frente um casal. Não eram jovens. Deviam estar na casa dos quarenta.
Era bonito vê-los ali. Juntos, mãos dadas. Partilhavam o mesmo amor, a mesma fé e pasmem, o mesmo celular.
Ela ali, sentindo-se pesada de tantos pecados e aquele casal na maior cara de pau usando o celular numa hora tão sagrada. Não, não era possível uma coisa dessas.
Ambos não desgrudavam os olhos daquela telinha brilhante.

Ela também não desgrudou. Tentava a dois bancos atrás decifrar o que estaria escrito ali.
Santo Deus, que mensagem imensa. Isso sim é um pecado dos grandes.

E por falar de pecado, ficou tão absorta em certificar-se daquela aberração que perdeu o momento de dizer interiormente os seus pecados e pedir clemência. Quando se deu conta, já era o momento da leitura do evangelho. Momento esse muito importante.

Estava tentando se concentrar. Era melhor não olhar para a frente. Inclinou a cabeça ligeiramente para baixo e para a direita.
Teve então outro sobressalto.

Agora era uma moça muito bonita e bastante jovem com o celular na mão.
Ah, que assim fica difícil seguir aquele mandamento de não julgar. Bem naquele momento e ela ali só movendo o polegar rolando a tela. Pelo jeito, outra mensagem dessas enormes.

Ela sabia que não se deve fazer comparações, mas os pecados dela eram fichinhas ali perante àquelas pessoas usando celular bem na hora da missa.

E a coisa não parava: era o casal da frente, era a moça do lado, e chegou a hora da bênção final.
Ela mesma nem percebera como passara rápido o tempo; percebera que não tinha ouvido uma só palavra do padre tanto que foi importunada por aquelas pessoas.

Na saída, aquela pequena aglomeração afunilava-se na porta principal. Pode ouvir de alguém atrás dela: “Obrigada pela dica! Baixei o aplicativo e hoje pude acompanhar toda a missa pelo celular e agora durante semana vou reler como uma reflexão. Muito bom esse app! Vai em paz!”
Saiu mais “pesada”do que entrou. Tinha na sua lista agora o pecado da maledicência.

Bem, agora já sabia: visse alguém com a cara enfiada num celular dentro da igreja, sabia que era um sagrado digital.

Ficou indignado? Pensando em escrever uma carta aos céus com o seu desabafo?
Então anota aí, que o endereço da Via Láctea foi alterado, ou melhor acrescentado.
Laniakea – palavra derivada do idioma nativo do Havaí e que significa “céu imensurável”.

Sol, Via Láctea, Grupo Local; Aglomerado de Virgem; Superaglomerado Laniakea; Universo.
Agora é só lamber o selo e clicar em enviar!


9 comentários:

✿ chica disse...

Nooooooooooooooooooooossa!

Eu nem devia me admirar, pois é sempre uma maravilha teu jeito de escrever!

Tu nos prendes do início ao fim e que fim!!!

Perfeito! Adorei! E não falta mais nada,né? Acompanhar a missa pelos apps? Sinais do tempo mesmo!!!

Adorei! bjs, chica

Poesia do Bem disse...

Concordo coma Chica, a gente te lê almejando ver cada palavra , cada fato que se segue e mesmo assim você nos surpreende. Amo ler vc. Tem novidades das artes de Alice no blog, vem ver como ela anda a se lambuzar por aqui hehe. Amei este conto. a tecnologia nos faz hoje em dia até pecar kkk

Calu B. disse...

Bendito revelado...aqui em tuas linhas instigantes, Ana, crônica deslizante para todos os olhares.

Moderno agora é rezar por apps e como fica o téte-a-téte com o Divino?
Tô contigo, melhor escrever em papel clarinho pra que não se percam os assuntos.Anotei o endereço:D

Bjinhus,
Calu

Cristiane Marino disse...

Oi Ana Paula,

Que absurdo! As pessoas estão loucas…
Essa compulsão por distrações e consumo até na hora da missa?
Que coisa triste.
Bjs

Marli Soares Borges disse...

Oi Ana Paula!
Delícia de texto, aliás como de hábito. É guria, são os sinais dos tempos. Pois sabes que eu gosto dessas modernidades? Qual é o problema em acompanhar a missa pelos apps? Imagine só, receber diretamente pelo celular as mensagens do além! É tudibom! Mas, óbvio, deve haver equilíbrio nas coisas e de tempos em tempos um encontro pessoal, na missa, com o representante de Deus (sem celular agora, rsrsrs) deve estar na agenda, não achas? Ah, já anotei o endereço.
Bjs
Marli
http://marliborges.blogspot.com.br

Tina Bau Couto disse...

Posso ficar em silêncio?

Moro em um Kinder Ovo disse...

Tá, a modernidade ajuda e eu usaria este APP no dia que não pudesse ir à missa. Mas servir a dois senhores, ao mesmo tempo, a bíblia já disse que não dá certo.

Beth/Lilás disse...

Muito boa sua crônica, Ana, você é dez!
Mas,sabes, tenho uma amiga que me disse outro dia que a mãe dela, portuguesa, super devota e carola, agora não vai mais à missa, só vê pelo IPad.
Eu não consegui combinar a cena na minha cabeça, aquela senhora portuguesa, tão séria e religiosa, olhando pela telinha a missa, mas realmente são os novos tempos, e é inevitável ficar brigando sobre isto.
umbeijinho carioca


Alê Biet disse...

Que sacrilégio.