segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Gola molhada

presente da Tina


Ainda não se acostumara. Ao longo de décadas, o jornal nacional, o qual não deixara de assistir um dia sequer, de tempos em tempos alterava seu horário de exibição, terminando agora bem mais tarde que há quarenta anos.
Esforçava-se para não cochilar. e o ritual repetia-se dia após dia: ao "boa noite" do apresentador, apertava o botão do controle remoto para desligar a televisão, levantava-se, tirava o fio da tomada e ia deitar.
Naquela noite porém, fez diferente. Ao ouvir a notícia de que o dia amanheceria chovendo, desligou a tv e foi até o varal que ficava nos fundos da casa para recolher a roupa e os pregadores. A estiagem prolongava-se atipicamente e ele já não se importava de deixar a roupa dormir ao luar.
A chuva, enfim, era prenunciada e foi com certo conforto que alterou sua rotina naquela noite.

Era fina a chuva que caía no início da manhã, mas suficiente para molhar roupa esquecida na corda.
Preocupou-se.
Da porta da cozinha viu a roupa do Seu Olavo esquecida na chuva.
Não precisava acrescentar ao nome do vizinho o pronome possessivo, afinal Seu Olavo e ele tinham a mesma idade. Era respeito mesmo.
Demorou o olhar na roupa alheia que o vento úmido chacoalhava. 
Como Seu Olavo, que também não deixava de assistir uma noite sequer ao jornal, não deu atenção ao aviso de chuva certa chegando ainda no final da madrugada? Por que não recolhera a roupa do varal?

Tinham amizade feito casas de cidade grande, com enormes muros e grades nas janelas.
Um aceno, um bom dia, uma reclamação do lixo jogado na rua ou o aumento do imposto. Não conseguiria transcender portões, muros e grades para falar com Seu Olavo naquela ocasião.

Ainda olhando para a casa do vizinho, incomodou-se quando o vento mudou de direção e trouxe algumas gotas da chuva a seu rosto que misturou-se com as lágrimas há tanto tempo estiadas de sua alma. Deixou-as escorrer com a chuva.
E então recordou que houve uma noite em que não assistira ao jornal nacional. A noite do velório de sua esposa. Dona Teresinha morreu deixando as camisas com os punhos e a gola ainda molhados pendurados no varal.
Preocupou-se com Seu Olavo.
A chuva agora engrossava.

11 comentários:

✿ chica disse...

Puxa, Ana Paula. Já no meio da leitura até eu estava preocupada com o Seu Olavo!

Lindo , muito lindo teu modo de escrever que nos prende até o final, esperando mais e mais! bjs, linda semana! chica ( a imagem, um amor!Tomara o fim de Seu Olavo seja bom!)

Moro em um Kinder Ovo disse...

Quando a alma é linda todo e qualquer sinal é motivo de alerta, de preocupação. Mas quantos passam sem ver e ouvem mas não escutam?

Poesia do Bem disse...

Lindo demais este teu conto, este teu modo de escrever e de nos encantar. Passa no Poesia depois e ver a Alice

Tina Bau Couto disse...

Ai! Chorei!

Ana Bailune disse...

maravilhoso e delicado... tomara que ela tenha ido verificar o que aconteceu com o Seu Olavo... embora todos saibamos o que foi.
Linda foto!

Nair Pinheiro disse...

A cada dia aumenta a minha admiração por sua sensibilidade. Lindo! Lindo!

JAN disse...

Uau, Ana Paula!
Realismo...Sutileza...Ternura... amor...

Estou levando pro E- Library.

Abração
Jan

lis disse...

De muita delicadeza o texto AnaPaula.
Cotidiano que nem sempre sabemos dar-lhes o nome e tu sabes porque a alma poética é pulsante.
boa semana com mais inspirações.

Calu B. disse...

Tua natural cadência nos faz debruçar com interesse e ternura sobre os vizinhos que em seus cotidianos costumes, revelam o não dito.
Tua escrita é cativante, Ana \o/
Parabéns!
Bjos,
Calu

Anne Lieri disse...

Ana Paula, um conto muito comovente e nos faz ver o distanciamento entre as pessoas na cidade grande que o personagem nem pode passar o muro pra falar com seu vizinho! Linda história! bjs,

Luma Rosa disse...

Oi, Ana Paula!
Golas, punhos e olhinhos molhados...
Faz tempo que não leio um texto tão tocante.
A vida é mesmo aquela que sentimos, aquela que acontece dentro de nós. Todo o resto, um robô poderia fazer.
Beijus,