Hoje limpei as frestas da minha janela
para que o cantar da passarinhada
adentre meu quarto e se acomode
em meu travesseiro
assim deixarei meus sonhos
embalada em melodias
e quando chegar à realidade
as frestas da minha janela
estarão quase explodindo em alaranjados
Havia muita poeira negra
nas frestas da minha janela
mas não são pedacinhos de poluição
dos milhões de carros dessa metrópole
são pedacinhos da noite de amor
do sol e uma estrela
Havia também muita umidade
nas frestas da minha janela
Não, não tem chovido por aqui
a umidade vem dos meus olhos
choro muito, a noite toda
Ruas sangrentas
onde crianças empunham armas
e carros-bomba
deixam rastros de destruição
e marcas de sangue
e mães sem filhos
onde se misturam
religião política
e dor
Ah tudo não passou de um sonho ruim
as frestas estão limpas
e deixam entrar
o perfume da estrela apaixonada
no alaranjado do sol
a cantata dos pássaros
a alegria
de um novo amanhecer
Escrevi estas linhas no calor de uma leitura, artigo de jornal escrito por Elif Shafak, sobre os questionamentos, os dilemas do escritor,
Um trecho:
"Quando as pessoas estão morrendo nas ruas ou os regimes estão se desintegrando, ou a possibilidade de um colapso econômico ou político parece perturbadoramente próxima, como os romancistas e poetas podem continuar ancorados no mundo imaginário? Escrever é um ato solitário, mas às vezes os sons das ruas interferem".
Esta frase ainda está me martelando na cabeça.
Saber o que se passa em nosso país, política, na cabeça dos governantes é necessário. E eu penso que temos talentosos jornalistas, e também escritores para esse fim. Sonhar, amenizar o sofrimento, também é necessário, e isto cabe aos romancistas, aos poetas.
Não sei se a rudeza da "Primavera Árabe" aniquilou a doçura dos poetas.
Não temos carros-bomba aqui em nosso país, mas temos um trânsito que mata absurdamente, temos cracolândias e balas perdidas.
"Quem vai cuidar das pequenas coisas do mundo
E derramar sua lente de aumento profundo
Em microinvisibilidades desabrotadas desse susto que demora?
Ora, o poeta".