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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Meia lua


Debruço-me bem ali
na mais tênue linha fronteiriça 
entre o brilho vivaz do teu olhar
e o secreto mundo dos teus sonhos

Houve um tempo
No tempo em que arqueada 
segurava tuas mãos 
a conduzir os passos ainda cambaleantes,
que teus olhos cerrados
eram simplesmente repouso

Debruçada na meia lua
misteriosa guardiã dos sonhos, dos teus anseios,
suspiro
sem tocar, sem falar, sem intervir

Chegou o tempo de tão somente contemplar
teus sonhos, tão seus
agora são eles que conduzirão teus passos

Pode ser que me decepcione, me machuque
Alegria, sorrisos, também podem ser

Cultivei o meu melhor
Talvez seja abundante talvez insuficiente

Chegou o tempo
em que o mundo vai te solicitando 
para que cada vez o orbite
com teus olhos pousados na meia lua das possibilidades
Alegrando ou decepcionando
não se retém uma órbita em ciclo.


sexta-feira, 19 de abril de 2013

Feliz Aniversário Tina!

"Achava que os passarinhos
são pessoas mais importantes
do que aviões.
Porque os passarinhos
vêm dos inícios do mundo.
E os aviões são acessórios."

Manoel de Barros



sexta-feira, 22 de março de 2013

Das cores invisíveis


Desejei que fosse azul. Celeste como o céu.
Mesmo assim me aproximei.
Ela desejou que eu fosse laranja. Gostava do entardecer.
Mesmo assim não se afastou.
Em seu olhar eu vi todas as belezas.
Ela olhou o meu dentro.
Silenciamos.
E o tempo não foi preciso em quantidades
Aprendemos frente a frente
uma para outra
não julgar.
Temos as cores do vento
que nos tingem além da matéria
Um sopro de Manoel de Barros
nos acorreu:
Privilégio dos ventos
semear 
as borboletas!
Privilégio teu olhar
pequeno imenso ser.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Poema e lembrança


Diário do amanhecer

Não me deixou dormir
aqueles minutinhos
acrescentados às pálpebras
sombreadas de férias

Escandalosamente forçou a porta
para adentrar
o aroma do café do vizinho
cedinho cedinho

Rodeou a varanda
e seduziu a janela
que assanhada
abriu-lhe as frestas
e ele me acordou
neste dia de inverno
no solstício de verão

Trouxe consigo
o barulhinho da água borbulhante
e o mexe e remexe da colherinha
dançando com o açúcar

Como resistir ser assim despertada?
Despertei e fui brincar de cotidiano

Ana Paula


Lembranças


- Pega aquela faca grande ali na gaveta.
Com muita habilidade minha mãe cascava o lápis de cor, depois pegava a caneta bic e escrevia na madeira o meu nome.
- Tem que abreviar, não cabe. Fica assim: A.Paula.
Com sua letra de forma arredondada, ia colocando meu nome um a um em cada lápis.
Época que não havia etiquetas pequenas.
- Pega a vassoura pra mãe varrer e vai arrumar os lápis no estojo.
Estojo retangular de madeira. Na primeira semana de aula, ao deslizar a tampa avermelhada desprendia-se um cheiro de início, de novo.
O chão da nossa casa era vermelho como a tampa do estojo.
Era um luxo.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Sem título

Havia um prazo para a poesia
vir para o papel
pontilhá-lo todo em forma de palavras
Esperei

Esperei não ouvir nenhuma bala perdida
estilhaçar a fina camada de sonhos da criança
Esperei pelo silêncio
Fungava, abafando o som com o travesseiro,
a mãe do filho que a droga levou
Esperei que as mulheres do Congo
não fossem mais estupradas
nem precisassem guardar o pouco dinheiro
em suas genitálias
Esperei tanto que o prazo ameaçou
partir e deixar a poesia

Mas havia morangos
adocicando o ar poluído da metrópole
Havia uma menina estuprada
que trazia no olhar o desejo de um príncipe encantado
Havia um menino que desejou
que desejou ser o príncipe
e um dia deus olhos irão se encontrar

A poesia chegou
Vermelho sangue
Vermelho morango
Papel adocicado
Poesia no prazo

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O mundo não acabou

Levo o cachorro a passear...
enquanto cheira um pequeno canteiro
decifrando uma linguagem
da qual sou analfabeta
leio os sons que saem
da janela de uma cozinha:
torneira aberta
talheres, bule, leiteira, pires e xícara
emborcados no escorredor
O dia segue...
sigo com o cachorro
o mundo não acabou

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Balões que flutuam


Pediu que amarrasse 
em seu punho
E ele o fez com delicadeza

Tirou os sapatos
para ser leve
como o balão

Correu inspirando ofegante
a brisa
o mar
a areia

Não se soube 
se velha 
ou criança era

Era somente leve
Podia flutuar
ana paula

Ah! Como eu queria ser a protagonista deste poema.
Nunca tive um balão de gás daqueles que se amarra nas mãos.
E só agora quando fico sabendo da notícia da escassez mundial de gás hélio, que é mais leve que o ar, é que me vem a vontade imensa de ter um balão, ou de ter tido um balão.


Não quero pensar seriamente no gás hélio.
Não quero saber por hoje.
Quero ter a imagem, o desejo.
Pediria ao bom velhinho, sem me preocupar se seu saco enorme de presentes iria também flutuar...


Quero um assim!

Sonhar é bom.
Mas agora a realidade me espera. Vou lavar louça.
Assim:


E breve, muito breve, terei um balão.
E com ele bem amarrado em minha mão, vou procurar um tocador de realejo.
Porque não importa a forma que o corpo tem agora: criança ou velho.
Há coisas que são para sempre em qualquer linha do tempo da existência.


terça-feira, 20 de novembro de 2012

Sol coberta janela

Cheiro do sol
dobrado no meio das cobertas
que passaram a manhã
debruçadas na janela

O moço dorme
coberto de coberta
que preguiçou na janela

Preguiçosamente sonha:
moça de saia de chita
sorri
um riso luminoso
como o sol

Canta disputando pauta
com a passarinhada
a moça de voz aveludada
pausa

O sol já perfuma a manhã
Acorda moçoilo
debruça a coberta na janela
e enquanto labuta
a coberta colhe sonhos para ti

Saia florida a enfeitar
os passos da tua amada
Apaixonado estás
moçoilo de bom coração

Sol
coberta
janela

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Caminhos da vida


Queria nunca 
nunca
ver-te chorar
quero que saibas
que por muitas vezes
choro por dentro
quando assim te vejo
Desejaria somente sorrisos
somente alegrias
Mas desejo-te vida
E em vida
há lágrimas
água que lava
dores tocáveis
intocáveis
lágrimas lavam o olhar
e os caminhos se tornam cristalinos
porque o coração limpou
a tristeza
Queria nunca que chorasses
mas quero que vivas
com toda intensidade 
e beleza
Não tenhas medo das lágrimas
apenas permitas
que seja pelo tempo necessário
que elas passem por ti
Os grandes rios
oceanos
de um olho d'água surgem
Um bonito caminho
na vida
também necessita
de lágrimas que brotam
da alma
e percorrem a face
e se vão
e confirmam o que há 
lá dentro 
Felicidade
ainda que chores por vezes
o caminho 
é vida
Desejo-te vida
Vida sempre

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A poesia dos passarinhos

Mergulho a pena no tinteiro
e pouso-a com a suavidade
de pouso de um pássaro 
no papel
Espero um horizonte de 
palavras, sonhos
surgir em minha mão
como surge para a
grande ave
o horizonte
plumagem na envergadura
de suas grandes asas

Temo nunca mais conseguir escrever com suavidade sobre os passarinhos.
Logo agora que estava quase conquistando o meu diploma de Ornitólogo Jabuticabal Juramentado, vem a ciência e transforma e transforma meus frágeis e adocicados passarinhos em dinossauros?



Aquelas peninhas que avoam e se dependuram ou pairam ali no seu computador e aqueles biquinhos que tão delicamente trinam melodias matinais são dinossauros encolhidos?
A ciência assim diz: os pés de um dinossauro se parecem com os de um periquito; o bico é um par de unhas facial...
Não estou mais na escola, então posso tirar zero em biologia. Nem vou estudar esta matéria de título: "Aves são descendentes diretas dos dinossauros".
Quero esquecer isto.
Quero passarinhar por aí e ouvir os trovadores dos bosques, florestas, ipês-amarelos das cidades.
Alguém passarinha comigo?

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Frestas da janela


Hoje limpei as frestas da minha janela
para que o cantar da passarinhada
adentre meu quarto e se acomode
em meu travesseiro
assim deixarei meus sonhos
embalada em melodias
e quando chegar à realidade
as frestas da minha janela
estarão quase explodindo em alaranjados

Havia muita poeira negra
nas frestas da minha janela
mas não são pedacinhos de poluição
dos milhões de carros dessa metrópole
são pedacinhos da noite de amor
do sol e uma estrela

Havia também muita umidade
nas frestas da minha janela
Não, não tem chovido por aqui
a umidade vem dos meus olhos
choro muito, a noite toda
Ruas sangrentas
onde crianças empunham armas
e carros-bomba
deixam rastros de destruição
e marcas de sangue
e mães sem filhos
onde se misturam
religião política
e dor

Ah tudo não passou de um sonho ruim
as frestas estão limpas
e deixam entrar
o perfume da estrela apaixonada
no alaranjado do sol
a cantata dos pássaros
a alegria
de um novo amanhecer


Escrevi estas linhas no calor de uma leitura, artigo de jornal escrito por Elif Shafak, sobre os questionamentos, os dilemas do escritor,
Um trecho:
"Quando as pessoas estão morrendo nas ruas ou os regimes estão se desintegrando, ou a possibilidade de um colapso econômico ou político parece perturbadoramente  próxima, como os romancistas e poetas podem continuar ancorados no mundo imaginário? Escrever é um ato solitário, mas às vezes os sons das ruas interferem".
Esta frase ainda está me martelando na cabeça. 
Saber o que se passa em nosso país, política, na cabeça dos governantes é necessário. E eu penso que temos talentosos jornalistas, e também escritores para esse fim. Sonhar, amenizar o sofrimento, também é necessário, e isto cabe aos romancistas, aos poetas.
Não sei se a rudeza da "Primavera Árabe" aniquilou a doçura dos poetas.
Não temos carros-bomba aqui em nosso país, mas temos um trânsito que mata absurdamente, temos cracolândias e balas perdidas.
E temos poetas, como este que assim escreve:

"Quem vai cuidar das pequenas coisas do mundo
E derramar sua lente de aumento profundo
Em microinvisibilidades desabrotadas desse susto que demora?
Ora, o poeta".

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Minha realidade

Já ERA  Objetos de uso pessoal desconectados da internet

JÁ É  Óculos do Google na semana de moda de NY

JÁ VEM Lentes de contato para realidade aumentada
(bit.ly.HOmufE)


Essa é uma "notinha"publicada no caderno Ilustrada do Jornal Folha de S.Paulo que eu gosto de ler e fazer minhas observações pessoais.
Já era objetos pessoais desconectados da internet? Como assim?
Já era a minha escova de dentes? Era deveria publicar em alguma rede social algo assim "6h 40 está escovando os dentes, acabou de acordar". Nossa ainda nem comprei a geladeira que fala e escreve e devo pensar nos meus objetos pessoais...

Óculos do Google na semana de moda. Ah, na semana de moda pode tudo, já teve vestido de chocolate, de bife, um óculos, do Google, não causa espanto.

Lentes de contato para realidade aumentada. Seria algo assim, você enxega o mundo real e a ele se mistura uma projeção do mundo virtual.
Eu quero.
Não a lente, mais quero alcançar, quero ver com o coração, uma realidade aumentada que me deixe, que me torne melhor. Sei que não é possível viver num mundo só feliz o tempo todo, mas que eu o veja em suas variações assim:


Urgente

Uma
gota
de 
orvalho
caiu hoje, às 8h, do dedo anular
direito, do Cristo Redentor, no
Rio de Janeiro
Seus restos
não foram
encontrados
A Polícia
não acre-
dita em
acidente
Suspei-
to: o
vento

Os meteoro-
logistas, os poetas e
os passarinhos choram in-
consoláveis. Testemunha
presenciou a queda: "Horrível!
Ela se evaporou na metade do caminho!"

Sergio Capparelli. Tigres no quintal
Porto Alegre: Kuarup, 1997.