sexta-feira, 26 de agosto de 2011

As mãos de Eugênia


Era um trabalho de escola.
Estranho e sem sentido. Entrevistar uma pessoa idosa e perguntar-lhe qual a parte do seu corpo achava bonita.
A mãe fora com a menina no Residencial Terceira Idade, no bairro mesmo, explicaram o caso e a funcionária disse que conversaria para ver quem estaria disposto e ligaria para elas no dia seguinte.
Levando apenas um celular para gravar a conversa, lá foi a menina sozinha, achando tudo um absurdo, afinal o que poderia ter de belo um morador de asilo?

Foi apresentada à Eugênia, 87 anos, que a recebeu em seu pequeno, mas aconchegante quarto.
E diante da pergunta feita pela menina de voz entre menina e mulher, os olhos da anciã esboçaram um sorriso:
Minhas mãos são a parte de mim que mais carrega beleza e que mais aprecio”.
Sem interromper, a menina lançou seu olhar para as mãos da senhora: enrugadas, manchadas, veias saltadas e um pouco trêmulas... já podia até ouvir as risadas dos colegas. Aquilo não podia estar acontecendo... escolheram a mais insensata das criaturas para falar com ela.
Minhas mãos, prosseguiu Eugênia, guardam o calor do seio de minha mãe me alimentando.
Guardam talvez, apenas dois momentos de meu severo pai: mãos pequeninas que curiosas e sem controle tocaram seus óculos e sua face, mãos trêmulas que cerraram seus olhos em sua partida.
Quanta traquinagem, quanta fruta no pé, terra nos dedos. Quanto asseio para brincar com a boneca de porcelana...
Mãos que mesmo trêmulas, seguraram firme o diploma que lhe permitiu partir atravessando oceanos.
Mãos que se enlaçaram em outra tão diferente na cor, tão idêntica em sentimentos... Mãos que enxugaram as lágrimas mútuas desse amor proibido.
Mãos que assinaram importantes documentos, mãos que se juntaram a tantas outras em corrente de fé para que a guerra cessasse.
Mãos que embalaram filhos, apoiaram seus primeiros passos;
Mãos que escreveram cartas nunca respondidas, mãos que escreveram livros, que aplaudiram netos;
Mãos que arrumaram os poucos pertences para esta nova etapa na vida de alguém velho.
Mãos que dançaram valsas, que levaram flores a tantos túmulos
E que hoje estão aqui..."
Neste momento uma fresta de sol entrava pela janela e pousava em tão belas mãos.
A menina desligou o celular, enxugou rapidamente o úmido dos olhos e durante alguns segundos, segurou em suas mãos a beleza trêmula que ali se apresentava.

8 comentários:

Tina disse...

"As mãos que descansam em teus bolsos
São as mesmas que cumprem tarefas
As mãos que apontam falhas
São as mesmas que distribuem perfumes
As mãos que empunham uma arma
São as mesmas que servem o alimento
As mãos que se erguem no instante da raiva
São as mesmas que se unem no momento da prece
Se as tuas mãos devem ser motivo de alegria
Cabe a ti decidir
Tuas mãos, tua obra"

Autor: João Camilo

✿ chica disse...

Emocionante.Só isso consigo falar...beijos,chica

Angi disse...

Muito emocionante, amiga!
bom dia!
beijos

Patricia disse...

Q texto lindo!
Me emocionei bastante!!
Bom final de semana.
bjs

Débora disse...

MARAVILHOSO!!Merece aplausos.
Me emocionei bastante.
Na época da faculdade, fiz uma disciplina - gerontologia, nossa como gostei! Tenho aqui um livro que li nessa época "Me conte a sua História", que relata história de idosos que estão nessa fase, em asilos...
Tem tanto a nos ensinar...
Bjão e um ótimo final de semana.
Bjo nas crianças!

Imac by Artes disse...

Quanta sabedoria! Emocionante!!!
Grande lição de vida.
Abraços! um final de semana abençoado pra ti.

Ivani disse...

Ana Paula, estou emocionada. Lindo seu rexto, e de uma sabedoria tão grande.
Onde você se inspirou para descrever mãos tão velhas e sábias? Conheceu Eugênia, ou é mesmo fruto de sua imaginação?
Seja qual for a resposta, adorei o tema, e as palavras emocionantes só poderiam sair de uma linda cabeça como a sua.
Beijos querida, ótimo fim de semana.

Liz - Como as Cerejas da Minha Janela... disse...

Ana, voce que escreveu?...

estou aqui, lendo...muito emocionada...

Beijos com carinho...