sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O imenso silêncio


Protelou, ou protelaram por ela o inevitável.
O encontro com ele era uma questão de tempo, sem importar se seriam dias ou anos. Ele era paciente e lá estaria esperando.
Colocou a chave na fechadura de abertura grande, daquelas que, em dias melhores gostava de brincar, espionando o cômodo todo pelo lado de fora, e girou. O rangido agora lhe dava medo. Sabia que ele estava lá, apesar de tantos dias...
Entrou. E ele berrava de maneira ensurdecedora. Ele, o silêncio da ausência. O silêncio que saiu daquele túmulo numa terça-feira chuvosa, correu a apoderar-se do seu lar.
Um silêncio que causava dor. Um silêncio que seu forte coração de onze anos de vida achou que não fosse suportar.
Precisava calar aquele silêncio e pôs-se a procurar alguma coisa, talvez uma carta. Ela não poderia ter partido assim sem deixar uma carta. Uma carta cheia de suas palavras para encher aquele vazio tão atordoante.
Passaram-se dias, ou talvez meses. Encontrava pequenos caderninhos com números de telefones separados por tracinhos, encontrava fotos apenas com a grafia “7 meses”. Procurava tanto que nem percebeu que o silêncio se fora.
Um dia, os raios de sol cantavam enquanto atravessavam a vidraça e um dia, ela encontrou, não a carta que tanto desejou que houvesse. Encontrou um pequeno dizer. E a casa se encheu com aquelas poucas palavras, mesmo que não fosse para ela.
Guardou tão bem guardado o antídoto para o silêncio ruim, que o perdeu por várias vezes, mas também o reencontrou já amarelado.
Quando o reencontrou pela última vez, não soube explicar o que havia acontecido com seu coração: ele não precisava mais de cartas, bilhetes. Tinha aprendido a ouvir, a sentir toda a alegria, o amor daquela que partira há tanto tempo.
Tudo o que foi vivido em pequenos onze anos era imenso. O silêncio não mais lhe assustava.


"Todos merecem a plena oportunidade de buscar, experimentar e descobrir aquilo que é engrandecedor do seu eu"

13 comentários:

Marcilane Santos disse...

Intenso e belo! O silêncio é muito mais grandioso do que pensamos.

Realmente, houve uma coincidência entre nossas postagens!

Um belo fim de tarde pra você. ;)

disse...

Estou com os olhos cheios d'agua.
Lindas palavras.

✿ chica disse...

Que espetáculo,Ana Paula!!

Emocionante teu texto. Adorei! beijos,chica

Tina Bau Couto disse...

Senti tristeza, saudade, alegria, maturidade em meu conceito de perda, uma vitamina de sentimentos, tipo aquelas que já não tomo mais, mas sinto o cheiro exato, o gostinho, ouço o barulho do liquidificador, as vozes de minha vó, vô, mãe, irmãos...
Um fds de lembranças e criação de novas lembranças para posteridade :)

Palavresias disse...

Que dizer desse texto Ana Paula?
Lindo, sensível, reflexivo e emocionante.
Parabéns pelo post querida.
Bom fim de semana.
Beijokas doces

Morgan Nascimento disse...

Olá, parabéns pelo seu blog!
Se puder visite este blog:
http://morgannascimento.blogspot.com.br/
Obrigado pela atenção

Carolina Lima disse...

Ana Paula,
é impossível não ler sua postagem e não sentir a pontada de dolorosas lembranças.
Eu gosto do silêncio... mas do silêncio que não machuca!

Um feliz final de semana!!

Abraços,
Carol
Um blog simples
Lojinha

Anne Lieri disse...

Ana Paula,o silencio pode ser dolorido e pode tb sumir um dia!Linda sua msg!Bjs e meu carinho,

Ivani disse...

Emocionante e triste, sinto que voltei no tempo ao ler esse texto.
Sei o significado de perder. De chegar em casa e querer sair correndo, de não suportar o silêncio.
Sua escrita está perfeita, intensa, um momento muito seu, muito íntimo.
Obrigada por dividir com seus amigos esse instante de nostalgia.
Beijos, bom domingo.

Patricia disse...

Q lindo texto!
No início sempre temos essa sensação que o vazio nunca vai passar, mas o tempo trata de amenizar, né?
Obrigada pela dica do blog!
Em breve ou postar uma novidade que acho que vc vai gostar. Vou tentar escrever amanhã.
Bjs

Kellen Bittencourt disse...

Sinceramente nem sei o que dizer Ana, só o que me ocorre é que por mais que o silencio machuque e a ausência ainda mais, a vida se encarrega de trazer os sons e as alegrias de volta, gostei, achei forte! Bjooooss

Su disse...

Ana, já tinha lido... fui e levei um pouco desse silêncio misturado com uma alegria repentina trazida por esse bilhete, não uma alegria qualquer, mas na verdade um conforto em saber que Ela levava consigo um pensamento tão nobre e que ainda naqueles poucos 11 anos de convivência passou toda essa nobreza de ser de pensar e de crer para quem ficou em silêncio triste, mas guardava ainda tão pequena mesmo sem saber tanto amor e sabedoria que lhe foi transmitida nesses 11 anos e que anos mais tarde viriam a tona e a fariam entender melhor quem ela era...
Chorei aqui, me emocionei e sinto até vontade de dar um palpite de onde veio esse bilhete, mas vou com a emoção embora e fico em silêncio e respeito.
Lindo demais, apesar da dor...
Beijos e lindo dia.
Su.

Rachel Facó disse...

Oi Ana,
Li vários dos seus posts hoje, assim de uma tacada só. E adorei! Quando cheguei nesse, o silêncio me calou. Sereno, ele não me machucou. Gosto do silêncio. Sempre achei que ele fala mais alto e em bom som.
Parabéns!
Obrigada tb pela visita, me deu imenso prazer vir aqui retribuir.
Beijos,
Rachel