sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Caixinha de fósforos




Irrito-me comigo mesma logo pela manhã.
Não dura muito e logo estou com um sorriso iluminando o rosto e os recônditos do que já foi vivido.
O motivo da irritação e do sorriso foi a caixa de fósforos.
Abro-a para aquecer a água do café e demoro a encontrar um fósforo pronto para o uso, um de cabeça ruiva, como diria o poeta Carpinejar.
É que tenho a mania de guardar na caixinha os fósforos usados. Quando ela é nova é divertido olhar um e outro palito destoando de seus semelhantes.
Na metade do uso, uma rápida passada de dedo revirando os palitos e já se encontra o procurado.
Para o final, é um teste para os nervos. Você sabe que existe uns dois ou três ali, mas os queimados são a maioria.
E para que se colocar nesta situação? -  você poderá estar me questionando.
Eu também me fiz a mesma pergunta: para quê?
Iluminou-se uma gavetinha da memória, como o abrir vagaroso de uma caixinha de fósforo.
Meu pai tinha este mesmo hábito. Ah! Então está no sangue, você diria.
Mas o sangue que me flui não é o do meu pai da caixinha de fósforos.
Pode ser então fruto do exemplo esse mau hábito que carrego.
E eu lhe asseguro que não pode ser.
Eu repugnava no meu pai cada palito riscado e guardado de volta; ele usava para acender os cigarros que fumava.
Aos 76 anos morreu. O médico disse que foi o cigarro. Qual o que! Morreu foi de vida. Fumava desde os 14 anos...
Ah! O meu hábito de guardar palitos usados? 
A cada caixinha, cada vez que abro, guardo, procuro, irrito... eu sinto acender em mim o amor que sinto pelo meu velho pai e o amor que ele sentia por mim.

12 comentários:

Tina Bau Couto disse...

Confesso que nunca me deparei com caixinhas de fósforo com fósforos usados entre os novos. Tem uma história que me vem amente quando o assunto são fósforos riscados, é a de uma moça que trabalhava na casa de minha mãe e jogava, como que num gesto ensaiado , invariavelmente, todo palito riscado ao chão. Chão que ela mesma varria. Será que havia alguma história por trás disso? Até hoje eu tinha isso registrado como gestos que me irritava, vou mudar de categoria.

Hábitos repetidos para se ter alguém presente, lindo isso! Junto dos palitos riscados, na caixinha guardados, imagens, lembranças, carinho que não se apaga, que se guarda e perpetua nas enormes gavetas da memória e hora traz sorrisos, hora traz lágrimas, fogo apagado que ascende o que tempo, nem distância apagam.

Kellen Bittencourt disse...

kk eu já tive esta mania, meu marido me tirou, hj não compro mais caixinhas de fósforos em casa mas já passei muita raiva procurando um filho de Deus na caixinha rsrrs bjooss Ana, volto na segunda!

✿ chica disse...

Que lindo isso. Essa chama que passa pela irritação no primeiro momento e culmina no amor, maravilhosa!! Tomara sempre fossem assim! beijos,chica

Blog do Óbvio - Manoel disse...

Ana Paula, você está certa. Muitas vezes me surpreendo fazendo coisas que eu achava pura bobagem e que eram manias de meu pai. No fundo no fundo essa antiga incomodação acabou por se transformar em admiração.
Muito gostoso ler essa postagem.
Beijo
Manoel

PS: - A propósito, me lembrei da caixa de fósforos que era usada para os dias de manutenção da empresa de eletricidade no prédio que vocês moravam, perto da Rubem Berta.
- Será que o "gordinho" do elevador já é pai?

Tem estórias e histórias que a gente não esquece porque são muito bem escritas.
Escreva um livro!... eu apoio e aguardo.
Beijo
Manoel

#*Marly Bastos*# disse...

Há certas coisas que nos evocam lembranças boas e nos brindam com momentos de saudades e amor.
Linda história Ana Paula, mas minha mãe tem mania de colocar o palito queimado na caixa de novo e eu morro de raiva disso. Vou lembrar de vc quando for usar o fósforo dela.
Beijokas doces

Nina disse...

Que bonitinho. Quer dizer, nao o encontro com os palitos ja riscados (imagino a irritacao) mas o descobrir da razao de isso acontecer. A chama ainda existente entre vcs dois. Mt interessante e bonito isso Ana.

Bicho Mãe disse...

Que lindo isso! Lindo sim!
Eu sempre me irrito com os fósforos, procurando só encontro os queimados... Então acendo o forno na parte de cima (que grelha) e uso o fosforo queimado meio que dando-lhe a vida mais uma vez rss...

Muito bom, essa lembrança do seu pai...Eu carrego um pouco de minha mãe em mim... Coisas até que eu não curtia na adolecência principalmente rss...

Adorei!

Beijoss

Flávia

Alê Lemos disse...

Sabe que tb guardo os palitos usados de tanto ver minha mãe fazer? kkktb sinto muito afeto por ela.

REINVENTANDO disse...

Vejo esse texto como uma bela homenagem ao seu pai..Bjs. Sandra

Mariacininha disse...

Ana Paula, adorei ler e saber sobre a sua irritação e seu sorriso logo pela manhã brigando com os palitos de fosforo. O mais bacana ainda é perceber como pequenos detalhes nos levam aos nossos antepassados de maneira tão poderosa. Também acho que seu pai não morreu por fumar, mas por viver.Acho que isso deixa a saudades mais suportável. Obrigado por seus comentários, lá no meu blog tão deliciosos de ler. Beijos

Lorena Viana, disse...

Querida eu tinha o hábito de guarda entre os novos palitos o que usava. Mas, assim como você, me irritava e fui desaprendendo.

No seu caso te traz uma recordação magnifica, então é maravilhoso esse hábito!

Beijo pesado de carinho...
Um domingo cheio de coisas boas.
Lorena Viana

Flor de Liz disse...

Incrível como sempre que alguém parte, nos deixa um pedacinho. O seu, usa por toda manhã.
Minha mãe guarda até hoje uma mania ou outra dos meus avós que já se foram, geralmente ao cozinhar... Acho fofo!
Como se dessa forma, eles permanecessem mais perto de nós com tantas lembranças.
Aquele tipo de recordação saudável, que vira parte da rotina como era para outros há um tempo atrás...
Adorei o texto como sempre, parabéns!

http://oiflordeliz.blogspot.com.br