sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Um gorila

Eu não fui ao zoológico. Aliás, faz muito tempo que não vou.
Fui à escola de música levar a minha filha para sua aula de violão.
Não, lá não tinha um gorila.
Não no sentido literal da palavra, da semelhança do peludão com o homem.

Quando o professor foi com a menina para a sala de aula e eu estava ali parada pensando no que faria nos próximos sessenta minutos, resolvi tomar um café porque aquele cd que fica tocando baixinho solos de piano, acaba por me causar bastante sonolência.
Assim que eu terminei de bebericar no copinho descartável, entra uma mulher.
Corri para ela e abracei-a.
Abracei-a com a intensidade de uma noite de ano-novo (embora eu não comemore noites de reveillon, isto é apenas para dar a dimensão da intensidade do abraço).
Sabe, quando a gente retorna para uma cidade que já morou anteriormente e encontra uma pessoa daquela época, algo fantástico acontece.
Foi o que aconteceu comigo.
Acho que dei um abraço de gorila na mulher. Mas, ela nem se mexeu.
Percebi que ela se sentiu desconfortável com meu gesto. Ah, eu sou muito perspicaz. 
Palavras. Eu apenas precisava das palavras certas para que dentro de alguns segundos ela me retribuísse um novo abraço selando a volta de nossa amizade ( bem, não chega a ser assim uma amizade, mas era um contato próximo, onde cabia um forte abraço).
Comecei a palavrear: você não está se lembrando de mim não é!? Não lembra? A Eliza, japonesa lá no Gopoúva nós passávamos as tardes conversando.
"Nunca fui ao Gopoúva"- ela me disse num tom de voz meio sufocado.
Nossa, será que eu abraçei tão forte a ponto de sufocar?
Faz um esforço, eu insisti. Eliza, japonesa, Gopoúva.
(................................................................................................................................................................)
A memória dela não vinha.
Pensei em utilizar as palavras que eu proferia quando trabalhava num centro obstétrico - vai, força, força, tá quase lá.
Mas aí a minha memória veio com toda força.
Numa das tardes nos sentamos para conversar e ela estava calada e com a mão cobrindo a boca. E eu, que sou bastante perspicaz, não parava de falar e fazer-lhes perguntas, quando ela discretamente tirou a mão da boca e mostrou-me uma banda inteira sem os dentes. Havia extraído toda uma metade para colocar uma prótese.
Mas eu achei melhor não falar sobre isto para que ela se lembrasse de mim porque ela poderia não gostar e me dar um soco de gorila e quebrar meus dentes.
Todos me desferiam olhares. As três moças bem a nossa frente no balcão, as pessoas na sala de espera. Acho que até as pessoas do ponto de ônibus do outro lado da rua tinham percebido a situação.
Pensei em dizer que pudessem ter colocado algo no café, mas como sou perspicaz, lembrei que poderia prejudicar a copeira.
Retirei-me de cena depois de um sufocado "desculpas".

Ainda teria que ficar ali por mais cinquenta minutos. E aquilo não fora um mico. Era um gorila mesmo.
Mas como eu acho que tinha alguma coisa no café, eu me sentei e comecei a rir. Claro que fiquei com receio de me acharem um tanto confusa. Então me vinha na mente aquele movimento em que você distribui abraços grátis a estranhos e isso me fez sentir melhor.
Os olhares foram aos poucos se dissipando, os ponteiros se arrastaram, algumas pessoas foram embora e eu fiquei ali sentada sozinha.
Quando escuto a voz dela "Tchau Uriel, depois tua mãe vem te buscar."
Claro! É isso! Eu tinha certeza que conhecia aquela mulher. Da escola de natação.
Tudo bem que não tinha nada de Eliza, japonesa, Gopoúva. Era durante as aulas de natação que a gente ficava conversando enquanto as crianças nadavam.
Poxa. Custava ela se lembrar.
Pensei eu me levantar e ir correndo ao seu encontro e falar da escola de natação...
Não conseguia me mexer. Parecia que tinha um gorila sentado em minhas costas.

8 comentários:

Tina Bau Couto disse...

Primeira consideração, adorei sua ida ao final do dia com o guarda-chuva molhado. Sorri como se a noite tivesse aparecido o sol :)
Segunda consideração: Posso perguntar pq vc não comemora as noites de ano-novo?
Sobre o abraço, eu no lugar dela faria de tudo para tornar-me sua amiga desde o abraço, meu marido as vezes fica preocupado pois faço amizade desde a padaria aos pontos de ônibus.
Imagino sua sensação de: por favor, um buraco.
Acontece nas melhores famílias de Londres, nas de Gopoúva então, amanhã ninguém nem lembra.
Supere amiga,pense que vc alegrou minha noite duas vezes.

Kellen Bittencourt disse...

rsrsrsr adorei o gorilão Ana, mas vc só errou o nome e o lugar, ela tinha que ter se lembrado rsrr, vc é muito engraçada, imagino as horas intermináveis depois desse micão, afff, mas valeu pelo post bem humorado que fez p nós rsr Bjoooosss

✿ chica disse...

rssssssss...Mas ela era uma estátua ambulante. Podia ter falado,não? Mas isso acontece e muiiiiiiiiito de colocarmos as pessoas nos lugares errados,rs beijos,chica

CamomilaRosaeAlecrim disse...

Menina, me desculpe, mas até dei risada com seu relato, mas não pela história que é um gorila mesmo, mas pelo jeito que vc escreve que ficou muito legal e ilário em algumas partes...adorei seu gorila!
Eu acho que ela até se lembrou, mas tem gente que gosta de se fazer de desentendida viu, já aconteceu comigo, parecido!
Beijos e obrigada pelo seu carinho! Te desejo um ótimo final de semana!
CamomilaRosa

Anne Lieri disse...

Ana,não imagina como me identifiquei com essa situação!Só que no meu caso,a desmemoriada sou eu.Reconheço um rosto mas demoro a lembrar de onde!Ou alguem me aborda e eu fico fazendo perguntas pra ver se lembro de onde conheço aquela pessoa!É muito constrangedor!Um gorila mesmo!...rss...bjs e bom final de semana1

Blog do Óbvio - Manoel disse...

Ana Paula, kkkkkkkkk! Perfeita essa postagem! Eu sou mestre em passar por estas situações. Sempre coloquei a culpa no "mico", mas agora vou adotar o "gorila". Cai melhor.
Dia desses uma professorinha (uniformizada) conversou comigo toda inflamada. Rimos, contamos causos e finalmente ela me disse que havia sido professora de minha filha. Só não se lembrava em que escola. Eu chutei nqualquer escola que minha menina tinha estudado e então ela disse que era um engano e ficou super "murcha". Foi muito chato. Fiquei com aquele peso de "vergonha" que se localiza entre a boca do estomago e o tórax. Enfim...
No entanto, minutos depois de perder de vista a professorinha, me lembrei que conversávamos quando ela fazia estágio numa escola de educação infantil. Isso acontecia todos os dias enquanto eu esperava minha filha. Fiquei feliz e pensei que quando a encontrasse pediria desculpas e diria sobre a escola.
Você acredita que faz um ano que aconteceu isso e eu nunca mais ví a professora? O dia que eu a encontrar vou ter que retribuir meu esquecimento com um abraço de GORILA. Claro que com muito cuidado porque se eu errar a pessoa, com certeza irei parar no zoológico.
Beijo

Imac by Artes disse...

Ana Paula querida!
Amo te ler...é bom demais!
Não gostei da atitude da mulher,que falta de atitude, gentileza...poderia ter sido mais gentil contigo.
Abraços amiga! Boa noite e um lindo domingo pra ti.

Adriana Engelmeyer Bouzan Lopes disse...

Ai Ana.......ela bem que podia ter ajudado a lembrar ....que gorilão.....kkkk diferente de um Mico...o Gorila é maior.......mas eu sem te conhecer retribuiria o abraço......kkkkkk bjussss