quinta-feira, 21 de abril de 2011

Cuecas

Quarta-feira cedo. Véspera de feriado. Eu arrumo a mala do filho que irá viajar com o pai. Confraria masculina.
Ficamos, eu e a Júlia. Confraria feminina.
Na arrumação da mala, dou conta de que as cuecas de meu filho não estão boas para uma viagem.
Impressionante o milagre que se opera naquele momento. Antes, apesar de todos os dias eu lavar e passar, acho que eu estava com as vistas cansadas, enxergando muito pouco.
Subitamente, na pressa de fazer a mala, a visão retorna, infalível, implacável: bolinhas, elástico ficando frouxo, descosturas, desbotamentos.
Bem, se por um lado não posso fazer nada, porque não há tempo de adquirir novas cuecas, por outro estou bem feliz: nada melhor que olhos tão saudáveis, visão perfeita.
Por uns instantes fico pensando o que as pessoas vão pensar de mim vendo as cuecas de meu rebento em tão lastimável estado, mas dura pouco. Nem temos tempo de ficar pensando nisso agora. Boa viagem filho, aproveita bastante, apesar das cuecas...
E ele parte.
E eu resolvo que vou às compras hoje – cueca e livros.
Não estou me sentindo nem um pouco culpada, mas já que meus olhos foram tão generosos mostrando-me o caminho a seguir, não posso dispensar tal conselho.

Ótima visão, então lembro-me que é preciso exercitar a memória para manter o cérebro tão bom quanto os olhos.
Para isto além de palavras-cruzadas, aprender um novo idioma, jogar xadrez (não pratico nenhuma dessas), nada de escrever em papeizinhos.
Memorizo o nome do livro e autor e pronto.
Deixo minha companheira de confraria na escola e vou às compras.
Ocorre que é véspera de feriado, e a cidade está diferente.
Enquanto caminho, entro no metrô, saio numa estação de trem , vou sentindo uma respiração exasperada da multidão e vou angariando ideias, palavras para escrever aqui no blog (foi o post anterior).
Compro as cuecas e norteio para a livraria.

A esta altura, meus pensamentos estavam nos ovos de páscoa. As pessoas andavam rápido, muitas segurando malas de viagem e poucas, muito poucas com ovos de páscoa na mão.
Fiquei imaginando: onde estariam os ovos? Nas malas não poderia ser. Tão cheias, aparentando estar espremidas, o ovo chegaria ao destino como um quebra-cabeças de mil peças. Na mão, estaria um creme devido ao calor desproporcional ao outono.
Ah! É por isso que estão todos lá aéreos sobre nossas cabeças nos mercados. Esperando o último momento para serem vendidos.

Sou atendida por um livreiro. Sim este quase extinto, do qual já comentei aqui.
Alguém que conhece bem os livros, sabe do que se trata, tem opiniões fortes.
E não é que ali parada em frente a ele eu simplesmente esqueci o nome do livro que queria comprar.
Quanta ingratidão da minha memória. Eu me lembro sempre de exercitá-la e ela me faz dessas?

Mas o livreiro sabe de seu ofício como ninguém. E vai aos poucos, com paciência me interrogando – tente se lembrar, pode ser só uma parte do nome.
Lembrei! O sobrenome. Serve?
Cuecas.
Não, eu não estou fazendo confusão nenhuma porque comprei cuecas, porque pensei em cuecas e porque meu filho está usando uma cueca desbotada.
Tenho quase certeza que o sobrenome do autor é este.
Ele me olha assim... nem saberia descrever.
Lança no sistema – cuecas. Nem olhei se escreveu com maiúscula ou não.
Não há nenhum autor aqui registrado como Cuecas.
Mas ele é um livreiro e pede-me que fale alguma coisa que sei sobre o livro, aonde eu ouvira falar dele. Qualquer coisa serve.
Ah! Sim. Lembro-me que é um projeto em que mandam os escritores para cidades do mundo para escreverem suas obras.

Cuenca. João Paulo Cuenca.

Décima quarta letra do alfabeto faltando. Tudo bem, não tinha o livro ali disponível no momento.
Eu estava realmente disposta a sair de lá com um livro para o feriado. E não desisti. Porém desta vez já fui avisando – também não tenho certeza do nome (vou levar um papelzinho sim da próxima vez) é algo como Desalmado.
O livreiro abriu um sorriso largo, tinha acabado de ler este livro. Excelente escolha me disse; aqui está Desalmand, Paul Desalmand.
Depois que eu ler e fizer algumas anotações em qualquer pedaço de papel, escreverei um post sobre a leitura. Tentarei não colocar letras a mais nem a menos.

4 comentários:

Liten disse...

Ola !! Obrigada pela visita! O macacão é bem fofo mesmo!!

Que correria hein? Nem me fale, mais adorei as confrarias!

Boa Páscoa!

beijos

✿ chica disse...

Rsssssss...tu és maravilhosa! Adoro te ler e me faz bem.Leitura levem, flui, encanta e sempre bem humorada, com toques de ralidade e simplicidade.

um beijo e curte o programa de meninas,rsrs chica

Claudia disse...

OTIMO post!!
Sou sua fã, Ana e leio tudo com um sorriso no rosto e uma leveza no coração...
Quero saber se estes livros sao bons, viu?!
Grande beijo para confraria feminina de plantão

http://blogdaclauo.blogspot.com/

Antonia Ivani disse...

Ahá!!! bem vinda ao time das desmemoriadas!
Brincadeirinha, você é muito jovem e deve ser apenas o excesso de informações na cabecinha.
Adorei a postagem, e tal como a Claudia quero saber se o livro é bom.
Menina, ainda não comprei Moacir Sclyar. Estou até com vergonha de tocar no assunto, mas é falta de tempo mesmo.
Beijo e aproveita para curtir a filhota.