quinta-feira, 28 de abril de 2011

Chover

Droplets Experiment with Canon S5 IS in RAW mode by Andreas.
Droplets Experiment with Canon S5 IS in RAW mode, a photo by Andreas. on Flickr.



Hoje ela quis ser chamada por seus adjetivos. Fina, constante, gelada.
Impôs sua presença absoluta, sem deixar espaço para um pedaço sequer de azul ou mesmo abrir uma fresta para que um raio somente de alaranjado se mostrasse.
Protagonista cinza atuou o dia inteiro, calma, segura de si.
Ousei pensar que perderia as forcas no fim da tarde.
A verdade é que passou a tarde a se preparar para intrépido espetáculo.
E no limiar entre o entardecer e o anoitecer fez sua aparição: volumosa, intensa, vestindo o negro do céu.
Mostrava-se garbosa a frente dos faróis dos carros, usando-os como holofotes para a peca que encenava.
Antes de ir, porém reservou-nos uma surpresa: uniu-se aos estrondos, permitiu um coro de vozes em trovejar, permitiu que seu negro vestido fosse riscado por raios.
Assim parte. Teve aqui seu palco. Absoluta, necessária, incômoda. Voltará breve. Ou não.

Hoje não foi um dia fácil, do ponto de vista dos deslocamentos, da logística.
Choveu o dia todo. Trouxe o cachorro no colo, depois de um banho e tosa, segurando guarda-chuva.
Administrar mochilas, lancheiras, guarda-chuvas, crianças e pocas d'águas...
As crianças adoram ver aro-íris esparramados nas pocas d'água. Eu destesto pneus de carro que passam em cima delas e fazem-nas abrir-se qual cauda de pavão em nossos pés e roupas.
Necessário um dia chuvoso. Nessas bandas daqui, com tantos cachorros que saem às ruas (gosto especialmente de ver os passeadores de cachorros a passear três ou quatro juntos!), os postes são muito beneficiados com a água vindoura dos céus.
Um fato, no dia de hoje, chamou-me muito a atenção: como estão feios os guarda-chuvas desta cidade. Depois da invasão “made in China”, acabaram-se os glamurosos guarda-chuvas com cabos de madeira, estilosos.
Lembro na minha infância, de uma casa das chuvas. Uma loja linda. Na vitrine manequins com capas para esses dias cinzentos e suas mãos apoiadas em belos modelos longos de guarda-chuva.
Eu estava sempre a entrar nesta loja para admirar a exposição, sempre mudando, sempre coleções novas.
Há muito não vejo uma loja dessas. Os guarda-chuvas ficaram compactos para caber nas bolsas e perderam o charme.
As crianças ainda têm mais sorte. Para elas os coloridos, com personagens
alegram o dia cinzento.
Nos meus deslocamentos, encontrei três guarda-chuvas, amarelos, juntos, trigêmeos mesmo a andarem apressados. Fiquei a pensar: será que as mocas saíram de algum comercial para a tv. Ficou muito vistoso uma multidão com as coberturas pretas, cinzas, azul escuro e aqueles girassóis passeando na chuva.
Enquanto não encontro um modelo garboso, vou usando o meu mesmo, chinês, azul com cinza, que no dia de hoje foi de muita utilidade!

Casulos

Enclausurada
um casulo de mim mesma
entre adormecida
e vigilante na espera

condizente
que assim é
entre a coragem e a covardia
de um parto que aproxima

ofegante, exausta
extasiada
habitando um lugar
ermo
de mim mesma

indiferente a um raio
luminoso do sol
insensível ao brilho do luar
mas inalando o sopro da vida


quarta-feira, 27 de abril de 2011

Leve-me com você

Este é o título do livro que falei num post anterior: Leve-me com você (as aventuras de um livro viajante) de Paul Desalmand.
Leitura leve, divertida.
Narrativa em primeira pessoa, é a biografia de um livro, contada por ele mesmo; como nasceu, as livrarias por onde andou, países, culturas diferentes, seus donos e suas personalidades e tem muito livreiro, no livro!
Recomendado. Há um trecho, que a partir de agora, toda vez que eu for em uma livraria, vou lembrar dele. Sobre os livros que ficam expostos em pilhas:

...O livro do alto da pilha às vezes fica um pouco gasto por ser manuseado; uma pequena dobra marca a capa, o exemplar fica um tanto aberto. Conhecemos então uma situação cruel. O cliente nos pega, examina, lê, e depois compra o exemplar imediatamente abaixo de nós, deixando-nos lá como uma noiva de longa data que vê o noivo, no último instante, decidir-se por outra...”

Eu sempre faço isto. Nunca levo o primeiro da pilha. Folheio e pego os que estão mais embaixo. A partir de agora, talvez fique melindrada com tal atitude!
Há também passagens, em que ele, cita clássicos da literatura estrangeira que eu nem de perto sei do que se trata, ainda assim gostei bastante.
Descrição hilária de quando fala sobre os mais variados tipos de marcadores de páginas que os leitores usam: os tradicionais, bilhetes de metrô, contas de restaurante e preservativo.
Agora, imagine se você recebe um livro emprestado com um preservativo dentro? Situação pra lá de inusitada!

Falando de clássicos que nunca li, hoje saiu uma coluna num jornal local, falando de uma pesquisa feita sobre os clássicos do cinema que as pessoas mais tem vergonha de admitir que não assistiram. E o primeiro da lista é O poderoso chefão ( eu não assisti) e ele segue dizendo que a pesquisa também poderia ser aplicada à livros e que com a maturidade deixou de mentir, omitir sobre o que não leu, ou não gostou só porque todos gostaram.
Um trecho desta coluna de Fernando Leal:

...Nisso não estou sozinho. O escritor francês Daniel Pennac tem uma lista dos dez direitos do leitor, dos quais me lembro com frequencia. De certa forma valem para os filmes também. São eles pela ordem:

o direito de não ler
o direito de pular páginas
o direito de não terminar de ler um livro
o direito de reler
o direito de ler não importa o quê
o direito de amar os heróis dos romances
o direito de ler não importa onde
o direito de saltar de livro em livro
o direito de ler em voz alta
o direito de se calar (ou seja, de não ter a obrigação de falar sobre o que leu).

Como é a sua relação com os livros? Gosta de emprestar? Lê mais de um ao mesmo tempo? O que você usa para marcar as páginas? Beijo!

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Desfazendo a mala

E então que eles voltaram. Cansados pela longa distância, felizes, corações desafogados das saudades.
Descarregamos do carro pencas de bananas, laranjas, mexericas, café, doce de leite e as malas.
Novidades contadas pela voz rouca do Bernardo (porque só parava de falar para dormir), e veio a primeira observação de mãe: as unhas das mãos e também dos pés de um marrom-terra de tonalidade inquestionável.
  • Mãe, comemos caqui no pé, colhi laranjas para você.
Interessante que o caqui da fruteira aqui de casa não faz sucesso. Compreensível: direto do pé é mesmo mais gostoso.
E é chegada a hora de tirar as coisas da mala.
Vou com ela para a lavanderia porque depois de ver as unhas, comecei a imaginar o que teria na mala.
A realidade foi bem mais dura que a imaginação!
As duas únicas coisas estavam intactas eram a escova de dentes e o pijama.
Isto me deixou intrigada. O pijama do jeitinho de coloquei, passado, dobrado, voltou o mesmo. Não pude evitar a pergunta:
_ Bernardo, você não usou o pijama?
_ Não mãe.
-E dormiu com o que?
-Com a roupa do dia seguinte.
Continuei a esvaziar a mala e fiz algumas contas mentalmente, relacionando o pequeno número de roupas que ele levou e o número de noites dormidas, concluí que em algum momento ele dormiu embalando o sono em marrom-terra.
E eu ainda estava preocupada com as cuecas que ele estava usando...



domingo, 24 de abril de 2011

Coelhos musicais

Desejo que o doce sabor da páscoa, adoce coracões, pensamentos e atitudes.
Coelhos musicais para este domingo. Música para embalar, sonhar, namorar e dancar...





sábado, 23 de abril de 2011

Cor de rosa

Carnation Or "And Now For Something Completely Different" by Cayusa
Carnation Or "And Now For Something Completely Different", a photo by Cayusa on Flickr.                                                    


E nossos dias de menininhas estão assim: suaves e delicados como pétalas de uma flor e claro, completamente cor de rosa!
Dormimos juntinhas e quando acordo ganho massagem em meio às cobertas. Quer maneira melhor de começar o dia?
E tem! Depois da massagem, poemas... Porque hoje a Júlia acordou com dois poemas feitos no sono ou nos sonhos.
É uma delícia despertar assim.
Nem temos saído muito de casa, exceção para dar a voltinha com o cachorro.
Hoje fomos comprar balas de goma porque a Júlia fez caretinhas nos ovos de galinha para presentear pessoas queridas.
E quando uma bala caiu no chão e ela rapidamente pegou e comeu, começou a rir e me disse:
- Mãe, se morrer não engorda.
Não conseguia parar de rir. Nova versão para "o que não mata, engorda!"
Lá das bandas do azul chegou uma mensagem por celular. No início, achei que o patriarca da confraria estava mesmo poético, mas acho que estava mesmo é aproveitando, de pernas pra cima, como sempre brinco.

"Não se acostume com o que não a faz feliz,
revolte-se quando julgar necessário.
Encha seu coração de esperanças,
mas não deixe que ele afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte.
Se perceber que precisa seguir, siga.
Se sentir saudade, mate-a.
Se perder um amor, não se perca.
Se tiver um, segure-o.
Enfim, fique de pernas para cima."
                                                                 Donisete



E eu, que estou de pernas pra cima, também fiz poema para a filhota. Adorei esta experiência de confraria feminina, mas estou com imensa saudade da turma da cueca!
Um poema para você filha:

Acordas tão linda minha filha,
com o rosto tão iluminado
que não preciso abrir a janela para o raio de sol entrar

Aonde estiveste enquanto o sonho da lua
embalava o seu sono?
Aonde vais que volta assim
tão radiante, transbordando amor
transbordando inspiração
para os teus belos poemas?

Compartilhamos juntas nossa existência
Trilhamos caminhos de mãos enlaçadas 
E assim sempre o será
não importa se houver distâncias
porque nossos corações sempre encontrarão um ao outro

                       Meu amor sempre por você Júlia
                                                        Ana Paula, mamãe


quinta-feira, 21 de abril de 2011

Respostas

Tantas são as perguntas
que os ventos carregam
que as estrelas ouvem...
e as respostas todas
chegam até mim
na luz do alvor
na harpa habilmente dedilhada
na terra rachada
pela esperança perdida por água
nenhuma pergunta fica sem resposta
e às vezes, tão somente
está lá, em meu coração
tão doada, tão entregue, tão pronta
e eu simplesmente
não sei o que fazer
com as respostas
Não sou hábil
como as mãos que melodiam a harpa
e talvez esteja semeando minhas respostas
em terra árida, sem esperança de água
e meu coração se agita, qual tormenta
Mudo então a melodia do meu clamor:
não imploro mais pelas respostas
porque sei que de qualquer forma elas chegarão
Minha melodia agora ecoa
num único clamor
ensina-me a usar as respostas.

Cuecas

Quarta-feira cedo. Véspera de feriado. Eu arrumo a mala do filho que irá viajar com o pai. Confraria masculina.
Ficamos, eu e a Júlia. Confraria feminina.
Na arrumação da mala, dou conta de que as cuecas de meu filho não estão boas para uma viagem.
Impressionante o milagre que se opera naquele momento. Antes, apesar de todos os dias eu lavar e passar, acho que eu estava com as vistas cansadas, enxergando muito pouco.
Subitamente, na pressa de fazer a mala, a visão retorna, infalível, implacável: bolinhas, elástico ficando frouxo, descosturas, desbotamentos.
Bem, se por um lado não posso fazer nada, porque não há tempo de adquirir novas cuecas, por outro estou bem feliz: nada melhor que olhos tão saudáveis, visão perfeita.
Por uns instantes fico pensando o que as pessoas vão pensar de mim vendo as cuecas de meu rebento em tão lastimável estado, mas dura pouco. Nem temos tempo de ficar pensando nisso agora. Boa viagem filho, aproveita bastante, apesar das cuecas...
E ele parte.
E eu resolvo que vou às compras hoje – cueca e livros.
Não estou me sentindo nem um pouco culpada, mas já que meus olhos foram tão generosos mostrando-me o caminho a seguir, não posso dispensar tal conselho.

Ótima visão, então lembro-me que é preciso exercitar a memória para manter o cérebro tão bom quanto os olhos.
Para isto além de palavras-cruzadas, aprender um novo idioma, jogar xadrez (não pratico nenhuma dessas), nada de escrever em papeizinhos.
Memorizo o nome do livro e autor e pronto.
Deixo minha companheira de confraria na escola e vou às compras.
Ocorre que é véspera de feriado, e a cidade está diferente.
Enquanto caminho, entro no metrô, saio numa estação de trem , vou sentindo uma respiração exasperada da multidão e vou angariando ideias, palavras para escrever aqui no blog (foi o post anterior).
Compro as cuecas e norteio para a livraria.

A esta altura, meus pensamentos estavam nos ovos de páscoa. As pessoas andavam rápido, muitas segurando malas de viagem e poucas, muito poucas com ovos de páscoa na mão.
Fiquei imaginando: onde estariam os ovos? Nas malas não poderia ser. Tão cheias, aparentando estar espremidas, o ovo chegaria ao destino como um quebra-cabeças de mil peças. Na mão, estaria um creme devido ao calor desproporcional ao outono.
Ah! É por isso que estão todos lá aéreos sobre nossas cabeças nos mercados. Esperando o último momento para serem vendidos.

Sou atendida por um livreiro. Sim este quase extinto, do qual já comentei aqui.
Alguém que conhece bem os livros, sabe do que se trata, tem opiniões fortes.
E não é que ali parada em frente a ele eu simplesmente esqueci o nome do livro que queria comprar.
Quanta ingratidão da minha memória. Eu me lembro sempre de exercitá-la e ela me faz dessas?

Mas o livreiro sabe de seu ofício como ninguém. E vai aos poucos, com paciência me interrogando – tente se lembrar, pode ser só uma parte do nome.
Lembrei! O sobrenome. Serve?
Cuecas.
Não, eu não estou fazendo confusão nenhuma porque comprei cuecas, porque pensei em cuecas e porque meu filho está usando uma cueca desbotada.
Tenho quase certeza que o sobrenome do autor é este.
Ele me olha assim... nem saberia descrever.
Lança no sistema – cuecas. Nem olhei se escreveu com maiúscula ou não.
Não há nenhum autor aqui registrado como Cuecas.
Mas ele é um livreiro e pede-me que fale alguma coisa que sei sobre o livro, aonde eu ouvira falar dele. Qualquer coisa serve.
Ah! Sim. Lembro-me que é um projeto em que mandam os escritores para cidades do mundo para escreverem suas obras.

Cuenca. João Paulo Cuenca.

Décima quarta letra do alfabeto faltando. Tudo bem, não tinha o livro ali disponível no momento.
Eu estava realmente disposta a sair de lá com um livro para o feriado. E não desisti. Porém desta vez já fui avisando – também não tenho certeza do nome (vou levar um papelzinho sim da próxima vez) é algo como Desalmado.
O livreiro abriu um sorriso largo, tinha acabado de ler este livro. Excelente escolha me disse; aqui está Desalmand, Paul Desalmand.
Depois que eu ler e fizer algumas anotações em qualquer pedaço de papel, escreverei um post sobre a leitura. Tentarei não colocar letras a mais nem a menos.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Ócio

A cidade respira hoje agitada. Respiração ofegante inalando o prenúncio do desejado ócio.
A cidade transpira. O suor escorre-lhe pelas ruas e avenidas, por estradas e rodovias, em forma de gente, em forma de carros.
As malas se fecham apressadas e vão para o trabalho logo cedo, ou ficam ali, imóveis pacientemente a espera que mãos apressadas a peguem para destinos conhecidos ou ainda inexplorados.
O coração da cidade pulsa descompassado. Pressa demasiada para uns. Relógio que não anda para outros.
Aviões, carros, ônibus, trens, preparando-se para conduzir, qual sangue fluindo pelas veias, cada um a seu destino.
Na distância, casas abrem a janela para que o sol entre, areje cobertas, travesseiros à espera dos viajantes da cidade. Despensa abastecida, memória a lembrar receitas queridas por quem chega.
E assim, neste final de tarde, tudo começa a se encaixar: o trabalho finda, a mala está à mão. Escorrendo como suor por ruas, rodovias congestionadas, o viajante vai lentamente percorrendo o seu trajeto.
Lá no destino distante, a cama já está feita, o bolo assado só à espera da chegada. Lá também sente-se o cheiro de dias deliciosamente ociosos em que se pode prosear até tarde da noite.
E assim a cidade vai se esvaziando...
Nunca muito vazia, apenas um pouco.
Os ciclistas já podem marcar encontros. Há mais espaço, menos perigo.
Eu fico a olhar pela janela toda esta pulsação efusiva. Quero sentir lentamente a transformação da cidade. Meus dias de ócio estarão aqui nesta meio-vazia cidade que terá um compasso mais lânguido.
Quero estar na mesma janela para receber os viajantes da cidade correndo a desfazer suas malas porque o relógio do escritório os espera. Quero desta mesma janela, imaginar a casa vazia, tão hospitaleira, agora silenciosa, arejando as lembranças das prosas até tarde da noite, esperando pacientemente o prenúncio dos próximos dias ociosamente deliciosos.

Aos que vão, aos que ficam...feliz feriado. 

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Bébés

Documentário francês que assisti hoje no cinema.
Quatro países e quatro bebês, desde o nascimento até os seus primeiros passos. Seus nomes são: Ponijao, Bayarjargal, Mari e Hattie, e eles vivem na Naníbia, na Mongólia, Japão e EUA.
O documentário nos convida a explorar simultaneamente e em quatro culturas muito diferentes, capturando os momentos mais engracados, os mais despreocupados, aqueles momentos únicos, universais e tocantes dos primeiros meses de nossas vidas.


Sem falas, sem legendas, com uma belíssima fotografia e deliciosa trilha sonora.
Adoro bebês, o olhar de um bebê dispensa qualquer legenda.
Este documentário, de alguma forma, remete-nos a nós mesmos bebês, mas também, o mais forte, é o aprendizado com culturas tão diferentes.
Acho que muitas vezes na correria das grandes cidades, vamos nos distanciando das coisas simples e corremos o risco de achar que a nossa maneira é a única verdade que existe. E há tamanha diversidade por aí...
Igual mesmo é o olhar, o sorriso, a felicidade de bebês em qualquer lugar do mundo.
Aqui na blogosfera, eu acompanho um bebê desde o seu nascimento. Agora ele está com quatro meses e comeca a fase dos suquinhos. É encantador a cada postagem ir descobrindo um pedacinho do bebê Ricardo. Lembrei-me muito dele enquanto assistia ao documentário.


Um vídeo bem curtinho, de dois minutos para mostrar um pouquinho do encantamento que esses bebês nos trazem. Cliquem aqui e se encantem também.

domingo, 17 de abril de 2011

Minha flauta


Ensina-me roubar o teu olhar?
Que tola sou eu!
Quem poderia roubar a imensidão do céu?
Teu olhar é alado
não busca refúgio
no pó desta terra
Pego minha flauta do chão
e deixo que minha música
seja levada pelo vento
na doce angústia
de um reencontro
fugidio momento
eternizado em meu ser.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Dia do café

Já foi!!! O dia do café é comemorado em 14 de abril.
Nunca soube disto, porém quando vi no jornal a data, logo me lembrei de um episódio relacionado ao café e achei que seria cabível postá-lo justamente nesta data. Mas, passou sem eu passar um cafezinho e fazer a postagem.
Comentei hoje com certa tristeza de quem esquece as coisas que teria que esperar o próximo ano, o próximo dia do café, ao que ouço em resposta:
você quer coisa mais diária que o café? O café é todo dia!
Quanta verdade nestas palavras que me encorajaram a vir aqui, no dia seguinte ao da comemoração para poder descrever o meu fato relacionado ao doce/amargo café.
De café, sei quase nada. Lembro-me da minha avó fazendo papinha de pão dormido com café com leite para vovô, que esperava sua tigelinha confortavelmente todas as manhãs ser servida na cama.
Mas o episódio que me marcou foi quando eu enveredava pelos afazeres domésticos e me deparei com o coador de pano que meu pai usava e achei-o muito amarelado, sujinho. Quis testar a receita ensinada por uma adorável vizinha. Quer branquear? Quiboa... a nossa água sanitária. E foi assim que eu alvejei o coador de papai e as coisas ficaram pretas para o meu lado. Só consigo me lembrar de uma frase: Nunca mais faca isso; coador bom é coador velho, sujo, amarelado, amarronzado.
Nunca mais cheguei perto do coador de pano.
Aprecio moderadamente um café. Agrada-me pensar que já foi ouro verde, que ainda restam a raridade de algumas mansões dos barões do café espalhadas pela cidade, gosto também de lembrar das propagandas de café da minha infância: a gente se transportava naquela fumacinha e quando estava no mercado, a mão apanhava aquela determinada marca na prateleira.
A publicidade de hoje dos cafés já não me emocionam.
Aliás, aquela maquina que se assemelha a um robô e prepara o café em cápsulas... não sei. Não é o ideal que tenho para um assim chamado “ritual do café”, que agrega, puxa conversas, sela contratos, cura bebedeiras.
Fiquei sabendo que há uma espécie de clube virtual para os aficcionados em café em cápsulas, tomara que eles se lembrem que antes de se tornarem encapsulados, secaram um dia num terreiro, aqueles saborosos grãos.
Em se tratando de café, tem também a cafeomancia – tradição árabe de se ler a sorte na borra do café. Para isto o café árabe não é coado, espera-se a borra sentar no fundo para servir. Acho que isso vai é me trazer azar, porque para um paladar não acostumado, deve ser horrível bebericar café assim.
Bem e por falar em café, está dando o que falar o café dos monges.
Último domingo do mês, no mosteiro de São Bento, aqui em São Paulo. Servido em um refeitório eclesiástico, regado por atracões de música clássica, canto gregoriano e o magistral som do imponente órgão vindo da sala ao lado, na mesa de quase 10 metros de comprimento é possível apreciar a gastronomia dos monges e também de renomados chefes como por exemplo salmão marinado, ovas de capelin, compoteiras de todos os tipos e também tem sucos e café, claro.
Na verdade não é um café, e sim um brunch, que arranca muitas frases como esta: Santa gula, que delícia”
O valor também é um pecado (mas não seja avarento) – R$99,00 por pessoa.
Ah! Esses monges querem mesmo que cometamos o pecado da gula. Deve ser possível se confessar ao final...
Mas eu fiz as contas para ir a família toda mais o cachorro e o estacionamento... em torno de um salário mínimo.
Achei melhor por enquanto não cometer o pecado da gula, da avareza e do endividamento.
Vou ali mesmo na padaria do Marcílio. Também tem café e dos bons!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Bons ventos

Ontem aqui em São Paulo soprava um vento engraçado. No nosso caminho a pé para a escola, entre mochilas, cachorro, crianças, ruas a atravessar e maozinhas a segurar, estava ele a encarapinhar os cabelos, derrubar folhas, bailar com o que estava pelo chão.
E era engraçado porque não trazia cisco aos olhos. Podíamos olhar cabelos balançando despretensiosamente, roupas não querendo parar no lugar, nosso cachorro parecendo estar em cima de uma motocicleta...
Deixei-os na escola e no caminho de volta vim caraminholando essa sensação agradável de um vento brincalhão, pensando para onde ele iria depois, se continuaria tão divertido e leve e pensei em escrever sobre isto.
Em casa, olhei a blogosfera que orbito e estava assim, uma aragem, brisa serena.
A calmaria se encarapitou em mim, e a vontade de escrever passou.
Ah! Mas hoje pela manhã soprou um outro vento, daqueles bons ventos que trazem coisa boa.
E o que ele trouxe?
Um lindo Poeminha de vento, que se sente como brisa refrescante.
E por aí, quais ventos sopram?    

Inefável

Comprei esta palavra, lá na grande fábrica de palavras e precisava dar uma utilidade para ela.
Fiz poema, que ficou assim:



Quantas cerejeiras floriram
nesse incansável rodopiar dos planetas
e a cada flor, em cada nova estação
eu me gabava por metamorfosear
palavras, vestir letras
com ternura ou
intempestivamente

E naquele instante
em que a flor se desprende
esmaecida
fui esvaziada
dos significados
cultivados

Na calidez dos teus lábios
eu me deixei ir
Habitamos espaços
ouvimos o nascer de uma estrela
e ao voltar
minhas palavras não significam mais

como definir
um amor que não vive tormentas
um silêncio repleto
um sentir na distância?

Voltei vazia
nada do que havia em mim
me serve para exprimir
o meu sentir

Talvez uma palavra ainda
me reste
inefável

terça-feira, 12 de abril de 2011

O cupido

Júlia, minha filha, completou seis anos no início deste mês e ela tem utilizado uma expressão engracadíssima: eu tô se estranhando agora que tenho seis anos.
Manhã dessas, ela me perguntou se eu não ficaria chateada com algumas coisas que agora ela sabe porque tem seis anos.
Respondi que não ficaria chateada e que ela poderia falar.
  • A fada dos dentes não existe, eu sei que é você que coloca a moeda debaixo do travesseiro.
    • Aquele barulho de papai noel, que a gente saiu correndo para ver, foi de alguma casa e você e o papai nos enganaram dizendo que era o papai noel chegando.
    • Na páscoa vocês vão no mercado comprar os ovos e compram também uma pantufa, que vocês molham e fazem pegadas e a gente fica achando que é do coelho.
Neste momento caí na risada imaginando os pais molhando pantufas para fazerem pegadas! Eu fazia é com farinha nos dedos.
Bem, quer dizer então que acabou tudo. Adeus lindas ilusões da infância.
Eu demorei um pouco mais para desacreditar...
Quando lhe perguntei quem foi que tinha contado tudo isso de uma só vez, ela me respondeu que ninguém, quando se faz seis anos essas coisas acontecem, mas para eu não ficar triste, poderia sim colocar a moeda quando o dente dela cair e vai acordar, pegar o dinheiro e fingir que foi a fada só para eu não me entristecer.
Esperta esta garota!
Eu já tinha pensado em escrever sobre isto, mas passou.
Só que hoje pela manhã ela me pergunta o que era cupido.
Eu disse que era uma lenda, um mito, de uma criança com asas, um anjo que atirava uma flecha no coração e a pessoa se apaixonava. Mas que era mentira isso, era só uma lenda.
Então, ela me devolveu:
-Mãe, claro que isto é verdade! Você não acredita em cupido? É claro que ele existe.
Vamos lá, sai o papai noel e entra o cupido e príncipe encantado ( e nesses eu gostaria que ela acreditasse sempre!)

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Ateliês Abertos

Este é o nome de um evento que nós participamos no domingo, no bairro de Vila Madalena aqui em São Paulo.
Reunindo 63 ateliês, entre escultura/pintura, cerâmica, joalheria, mosaico, papel, técnicas diversas, artesanato, tecidos e fotografia.
Fiquei sabendo na última hora, e as crianças adoraram.
Ficamos horas no ateliê Etno Botânica, que produz corantes e pigmentos naturais, utilizando plantas cultivadas por pequenos agricultores e coletadas por comunidades que praticam o extrativismo sustentável.







Bernardo se encantou com este latão cheio de tinta índigo.
Se pudesse teria um. Nem ousei saber a finalidade...

domingo, 10 de abril de 2011

A face do tempo

Andei brigada com uma face do tempo.
Não aquela que nos marca a face! Com esta, nossa convivência é harmoniosa.
Falo da face rotineira do tempo, aquela onde temos compromissos a cumprir. E o problema era o horário da escola das crianças.
Eles, desde que começaram a escola, frequentaram-na no período da manhã. Todos nos adaptamos muito bem. Podia ser inverno, mas sempre levantaram dispostos e a engrenagem do tempo tinha um encaixe excelente com a nossa rotina.
Desde o início do ano, a engrenagem começou a ranger e até beliscou meu dedo, quando fui lá reclamar e tentar mudá-la.
Foi necessário mudar as crianças de escola e não havia aulas para a turma deles no período da manhã. Só poderiam estudar nesta escola à tarde.
E já nas férias de verão, antes mesmo das aulas começarem, fui eu quem começou a resmungar e estremecer as relações com o tempo: já tinha ficado repetitivo eu dizer: “vão estudar de tarde, acho horrível este horário, não dá para fazer nada”.
E não é que não dava mesmo? Foi isto que constatei quando as aulas iniciaram. A engrenagem definitivamente estava contra a minha rotina.
E claro que estava ficando difícil e claro que eu queria fazer algo para melhorar.
Comecei pensando muito que aquele tempo da manhã não podia ser diferente dos minutos, das horas da tarde. Fiz sim algumas adaptações como acordar mais cedo, organizei tarefas que podiam ser feitas a tarde e também encontrei um twitter que me chacoalhou:

Enquanto ficamos lamentando o tempo perdido, ele continua a correr sem olhar nossos lamentos. Então precisamos vivê-lo e não lamentá-lo”


Mexeu muito, mas ainda a minha engrenagem não tinha encaixado com a do tempo.
Numa manhã desta semana, minha filha ao acordar, ainda antes de deixar a cama me disse com aquela voz deliciosa de quem está acordando – mãe eu tenho um poema que acordou junto comigo; pega um papel para você escrever.
Não esbravejei que o tempo iria correr, simplesmente me entreguei àquele momento me deliciando com um lindo poema. Depois ela me pediu que postasse no seu blog. Liguei o computador, o café ficou tranquilamente esperando para ser passado e naquela manhã, tudo se encaixou. Houve tempo para todos os compromissos, sem atrasos, sem correrias.
A matemática dos segundos é a mesma para a manhã ou para a tarde, é só girar suave com a engrenagem faceira do tempo.

sábado, 9 de abril de 2011

Aprendendo sobre skate

Esta semana, auxiliei meu filho Bernardo em um trabalho para a escola. A matéria era Filosofia e o tema livre a ser escolhido pela dupla que eles formaram.
Escolheram como tema “skate”. Orientei a pesquisa pela internet, levei-o para conversar com três skatistas e mandei um e-mail, sem perspectiva alguma de que fosse respondido.
O trabalho consistia em dar algumas informações sobre o tema e chegar a uma conclusão filosófica do assunto.
Eu, particularmente, achei de início que haveria muitos outros temas muito mais filosóficos, mas não interferi.
Foi aí que comecei a me surpreender a cada novo fato que o Bernardo me trazia da sua pesquisa, das conversas e no dia em que deveriam entregar o trabalho, chegou a resposta do e-mail. Deu tempo de acrescentar muita coisa do e-mail no trabalho e eu cheguei a muitas conclusões.
Foi um aprendizado para mim. Meus olhos simplesmente captavam imagens de skatistas que não me diziam nada. Era uma “tribo”apenas. Acho que já pensei que era perigoso, apenas. E os praticantes, pessoas estranhas em seus trajes.
Esporte. Nunca antes eu tinha visto que era um esporte, praticado como uma brincadeira gostosa em plena avenida Paulista. E que bom esporte, porque seus praticantes estão em forma! Não imaginava que havia sim uma filosofia junto ao skate. Heterogênea, porque há os que se identificam com o rap, com o rock, com o reggae além de dialogar com várias outras manifestacões urbanas como a arte (graffite, street art).
O que mais me surpreendeu: todos a quem conversamos, pessoalmente, pela internet foram solícitos. Dispuseram de seu tempo a nos explicar, a nos ensinar.
Faço aqui em agradecimento ao Giancarlo, que em seu e-mail usou estas palavras que me marcaram: “...é preciso conhecer, caso contrário podemos cair em certas generalizações”.
Trocando em miúdos é muito fácil criar um preconceito, um esteriótipo.
Obrigada Giancarlo.
Vou costurar aqui um outro assunto, ruim, desconfortável que é o episódio acontecido naquela escola do Rio de Janeiro.
Li, pela manhã, no site do Yahoo, na coluna do Walter Hupel, entitulada o retrato da maldade, onde ele questiona e nos leva a pensar na maneira como a imprensa tentava explicar o fato com esteriótipos que iam de ateu, muçulmano e por fim soro-positivo.
As generalizações não explicam, apenas podem alimentar ideias errôneas e gerar preconceito, discriminação.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Caqui com alho

Hoje, com a casa silenciosa, os vestígios alegres das crianças organizados, não abri um livro. Abri a tela do computador e entreguei-me a textos, poesias, blogs amigos e desconhecidos sem nenhuma pressa.
Fui, porém interrompida pelo anúncio de que era chegado o momento de nutrir-me agora com algum alimento.
Na intenção de fazê-lo de maneira prática, para logo voltar à prazerosa atividade, optei por uma fruta, um caqui.
Lavei-o e peguei uma faca que estava por ali tão perto, poupando-me qualquer esforço. Parti-o ao meio como meu costume e hoje sem precisar dar exemplos de etiquetas às crianças (função enfadonha de mãe) levei a fruta a boca, ali mesmo na beira da pia. Era para escorrer mesmo e rapidamente eu abriria a torneira, levando a mão molhada ao rosto.
Não era nada pensado, era pra ser meio automático, porque eu estava em meio a uma exploracão, não deveria me demorar.
Mas fui assolada por um comportamento irreconhecível.
Levei a fruta à boca e nos primeiros movimentos de dentes e língua, meu corpo foi paralisado, apenas os músculos da mastigação seguiram, porém muito lentos.
Havia cortado o caqui com a faca que no preparo do almoço, fatiei alho.
Reconheci imediatamente o acontecido e estranhamente, não tive qualquer reação. Poderia ter me livrado alçando para longe aquele conteúdo, poderia ter proferido sonoro palavrão. Fiquei ali, estática.
O gosto não era bom, nem tampouco ruim. Fui deglutindo, levando outros pedaços à boca, não abri a torneira...
Então se deu a catarse, ali na beira da pia. Senti uma vontade imensa de escrever. O caqui ficou na boca, com bons modos. O cérebro escorrendo ideias, pensamentos, palavras.
Insana. Ocorreu-me esta.
Agora, com o hálito recomposto, palavras domadas, posso finalizar com a Moral da História:
Caso você tenha alguma dificuldade para blogar, experimente partir um caqui com a faca anteriormente usada num alho.

Ps. Caso você experimente com outra fruta, por favor relate o que aconteceu. Será que te levará a escrever poesias infantis, contos, prosa...?