sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Histórias amareladas


Cultivo hábitos antigos; alguns diriam ultrapassados.
Para mim, do passado que ainda se faz presente.
Ir a uma agência dos correios, por exemplo. 
Evitável, alguém poderia sugerir.
Fato, evitável em muitas situações.
A que me levou até lá, também seria evitável.
Fotografias. Eu poderia transferir as fotos diretamente para um site, que, após a confirmação do pagamento, enviaria diretamente para a pessoa em questão. Economizaria tempo.
Mas não é sempre que quero economias de tempo.
Saí cedo, com o sol ainda ameno. Caminhada, ponto de ônibus, ônibus, descer na praça, caminhada, senha, espera, atendimento, alegria.
Entre a senha e o atendimento encaixava-se um livro que lembrei de pegar antes de sair de casa.
Pequeno para que não pesasse e coubesse na bolsa.
E foi entre a senha e o aviso sonoro e luminoso no painel que eu encontrei uma história nesse livro.
Especificamente nas bordas dele.
Eu era uma menina e junto a meu pai, via o progresso do metrô chegando cada vez mais próximo de onde morávamos.
Eu tinha quatorze anos quando era possível pegar um ônibus e em meia hora estar na estação mais próxima, que traduzida do tupi, significa "caminho do tatu". E veio a permissão ( e acredito, apreensão ) de meu pai para que eu fosse sozinha ao centro de São Paulo.
Quase indescritível a sensação!
A confiança dele em mim, a minha responsabilidade, a liberdade contida no trajeto. Claro, que precisei disfarçar o frio na barriga.
Fui e voltei em segurança e fui tantas outras vezes, já sem o frio na barriga, entrando e saindo de lojas e ruas estreitas.
Na loja de nome Paulinas, onde havia artigos religiosos, de papelaria e uma boa livraria eu entrei muitas vezes. Comprava marcadores de páginas com belas imagens e frases com os quais eu presenteava as amigas da escola. E lá me deparei com uma coleção de pequenos livros de um mesmo autor que soube ser poeta.
Capas de cores intensas para cada título. Haviam muitos exemplares. Custava pouco.
Trouxe um para casa e de uma outra feita, mais um.
Poderia ter comprados todos de uma só vez, devido ao preço tão miúdo. Era o prazer de ir até lá.
Era a eternidade que me pulsava, a duração de para sempre da adolescência, da loja, dos mesmos livros, no mesmo lugar.
Mas a vida também escreve enredos para nós.
E quando lá eu voltei, o nome da loja antes no feminino, tinha mudado para um equivalente masculino.
Não questionei o porquê; queria apenas comprar os livrinhos e até me lembrava do lugar onde estavam.
Mas eles não mais existiam.
O efêmero começou a se mostrar ali.
Saiu do catálogo, não era mais editado, não existia na loja que apesar de existir, mudara o nome e talvez tantas outras coisas.
Pudera, eu também não era a menina que desbravava o centro da cidade.
Restou-me o meu exemplar, na verdade, os dois somente.
Poesias no lado de dentro, histórias nas bordas amareladas.
Entre a senha e o atendimento, não abri o livro.
Ele mesmo fechado me contou toda essa história.

A1106

Minha vez. As fotos. O atendimento. A alegria.

7 comentários:

Verdades de um Ser disse...

Que coisa mais bela Ana Paula! Estou com os olhos inundados, emocionado. Você escreve divinamente. Pena que com alguns pequenos deslizes na correção... Mesmo assim, as falhas tornam-se insignificantes face a grandiosidade do seu texto.
Poucas vezes tenho lido coisas de pessoas que conseguem, do modo como você o fez, acessar o mais íntimo do seu ser.
Mas, minha chegada aqui carece de uma pequena explicação. Sou fã de Pandora e, lendo um texto de blogagem coletiva no blog dela, fui direcionado pra você. Após ler seu texto das saudades e ver sua linda foto de infância, fiquei curioso pra lhe conhecer melhor. O resto você já sabe.
Queria agora poder te dar um abraço...

Sou Alberto Valença do blog Verdades de um Ser e colaborador do Meu pequeno vício. Agora criei também um blog de viagens - O seu companheiro de viagem

Verdades de um Ser
O seu companheiro de viagem

✿ chica disse...

Ana Paula, adorei teu texto, como sempre escrito com o coração na ponta dos dedos. Imagino o coração do teu pai na primeira vez que foste sozinha ao centro de SP. E "entrei" contigo nessa livraria Paulinas ue sempre tem alguma coisa legal. Também me surpreendi quando passo a ser Paullus. Enfim, adorei te ler e valeu muito a espera desde o pegar a ficha até o atendimento. PERFEITO iniciar mu dia com texto assim! bjs, chica

Portugalredecouvertes disse...


Emoções vividas Ana Paula, carinhosas,à escala humana!
bonita partilha :)
abracinhos
Angela

Tina Bau Couto disse...

Seu narrar vou pular elogiar

Muito fui nas Paulinas
Dei e recebi marcadores de páginas de lá
De lá meu Minutos de sabedoria com dedicatória da pró do SOE e tantos outros que comprei e dei, pois tem isso de ter que ser ganhado
Livros sempre vi, foleei mas não tinha dinheiro para comprar
Comprava os marcadores e cartões para dar no Natal, aniversários

Tive recentemente lá, na de nome feminino que aqui ainda há
Foleando livros infantis que já posso comprar mas nesse dia não podia
Livros do Padre Fábio
Encantada com os terços e anjinhos de colocar na estante e altar
Lembrancinhas de Batismo e Primeira eucaristia, os meus e do filho vieram de lá
A loja na Av sete, no mesmo lugar, que nem seu livro cheio de histórias sem ser nem aberto, é lugar que não preciso ir para passear

Aqui tem As Paulinas e a Paulus
Eu a sua disposição para encomendas e na emenda das idas e vindas de correio já tenho o que baratinho, leve e junto com livros mandar

Pandora disse...

Não tem como não se emocionar... e não se identificar também com suas histórias, elas aquecem meu coração da melhor forma possível enquanto me emocionam.

Calu B. disse...

VC nos conduz com poética facilidade, a lhe acompanhar os passos por entre as linhas do tempo, as ruas de ontem e de hoje, os lugares de querida memória que passam a nos fazer companhia nessas linhas tão tocantes, Ana.

As Paulinas ainda hj estão em meu catálogo preferencial por todos esses motivos que vc apontou.Em certa feita, vasculhando os achados por lá, encontrei um livro-imagem carregado de significados.Apresentei-o aos alunos que se entusiasmaram tanto quanto eu.A temática rendeu tanto que ao final a turma trocou e-mails com o ilustrador. Foi marcante.

Grata pelo belo passeio aqui proporcionado.
Bjkas,
Calu

Poesia do Bem disse...

Lindo teu texto ano, de uma sensibilidade aguçada que sempre nos toca e nos faz refletir sobre as singelezas que a vida nos mostra e é preciso atentar-se para ver. Tem flores ao vento pra vc no Poesia